x

A mão que cuida também luta

Filipi Lopes Araujo (Pepe) – 66 da ENF

Olhando para o nosso sistema de saúde, nós vemos muitos profissionais. Especialmente na pandemia, o reconhecimento dado a essa classe de trabalhadores tem sido maior do que em outras épocas, especialmente para aqueles que não são médicos, em especial, os profissionais de Enfermagem (enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem). E é sobre eles que quero falar aqui, não só porque hoje é o dia internacional da classe, mas também porque eles precisam ser vistos, compreendidos, valorizados e respeitados.

Digo isso porque essa é a maior classe dentro dos trabalhadores da saúde e, infelizmente, é a que mais sofre violência verbal e física em hospitais, clínicas e Unidades Básicas de Saúde. Além disso, recebem um salário muito abaixo do merecido, chegando a ganhar menos de R$ 2.000,00 em alguns locais em que prestam serviços. Não é revoltante? O pior é que mesmo tendo Conselho Regional e Federal, ainda não conseguimos obter um piso salarial.

E se você não entende a minha indignação diante do estado em que a enfermagem brasileira se encontra, vou detalhar aqui um pouco do trabalho dessa classe, para que você entenda e apoie a nossa busca por melhores condições de serviço, salário e reconhecimento. Provavelmente, você já entrou em contato com algum desses profissionais, afinal, deve ter ficado doente e precisou ir a alguma unidade de saúde. Caso o problema não tenha sido muito grave, você deve ter tomado um soro, uma injeção ou feito um curativo básico para escoriações.

Contudo, o trabalho da enfermagem é muito maior do que isso. Sabia que nós fazemos um plano de cuidado que deve ser exclusivo para as necessidades de cada indivíduo? Sabia que, caso você fique internado, a classe que estará 24 horas ao lado do seu leito é a enfermagem? Que é ela que vai cuidar de toda a sua higiene quando você não puder fazer isso por si mesmo? Que é ela que vai cuidar para que o material utilizado na sua cirurgia esteja totalmente esterilizado? Que é ela que vai advogar por você na discussão do seu caso com a equipe multiprofissional? Que é provavelmente ela que vai te explicar tudo que o médico falou com aquelas palavras difíceis de entender?

Pois é! Aí, e em muitos outros lugares, a mão que cuida estará exercendo o seu trabalho, não porque são anjos, mas porque são pessoas que estudam a arte e ciência do cuidado, a fim de oferecer um apoio embasado cientificamente e o mais seguro possível. Com isso, quero dizer que a enfermagem é, por si só, uma ciência e, sem ela, não há Sistema Único de Saúde (SUS) e não há funcionamento integral de nenhum serviço de saúde.

Como ciência, a enfermagem tem também suas/seus estudiosas/os, mas eu gostaria de citar duas que fizeram (e fazem) toda a diferença no processo de trabalho da classe. A primeira é Hildegard Peplau, enfermeira estadunidense do século XX, que desenvolveu a Teoria das Relações Interpessoais, a qual relata os diversos papéis incorporados pelos profissionais de enfermagem durante o seu trabalho, a depender da necessidade dos clientes. Isso significa que estes profissionais podem representar uma mãe ou um pai para consolar, um educador para ensinar autocuidado, uma advogada para garantir que os direitos do paciente sejam respeitados, um terapeuta para escutar as preocupações e ansiedades, e assim por diante.

A observação da autora acerca da conformação das relações interpessoais no trabalho da enfermagem com certeza nos dão um olhar que vai além da simples injeção ou soro, frequentemente associados à profissão. Contudo, ainda temos a enfermeira Maria Júlia Paes da Silva, professora aposentada da Escola de Enfermagem da USP (EEUSP), que nos ensina a olhar o que os nossos pacientes querem comunicar para além das palavras expressas por eles, nos incentivando a ser comunicadores e observadores ativos, visto que todo o trabalho da classe se dá através das relações e conexões humanas.

Essas são as duas profissionais que me inspiram, dentre muitas e muitos outros que também o fazem através de seu trabalho comprometido com a ciência e com o ser humano, apesar das violências e condições insalubres de trabalho às quais estão expostos. É triste ouvir comentários desagradáveis de pessoas que não percebem o quanto é necessário estudar e se dedicar para tornar-se enfermeiro. Me lembro quando estava estudando anatomia com um livro enorme na biblioteca e uma mulher veio até mim e perguntou: você é aluno de Medicina? E quando respondi que não, que na verdade eu estudo Enfermagem, pude perceber um ar de desapontamento na expressão facial dela. E isso aconteceu outras vezes, bem como também já ouvi frases do tipo “nossa, você é quase médico”, “por que não fez logo Medicina?”, “é, você que faz enfermagem até que sabe um pouco, mas se fosse médico…”, e a lista é quase infinita.

Perceber a ignorância social acerca do nosso trabalho me deixa triste, eis o motivo da reflexão de hoje, para trazer um pouco mais de informação acerca do que é ser da equipe de enfermagem, a classe que cuida e que precisa lutar diariamente para fazer valer seus direitos e para que condições dignas e seguras de trabalho sejam proporcionadas. Com certeza há muito mais que poderia ser escrito, mas o Ócios tem limite de páginas. Brincadeiras à parte, quero citar agora, no fim desse texto, alguns profissionais da classe que me enchem de orgulho pela profissão.

Obrigado, Flavianny Kasbaum, pelo cuidado dedicado aos pacientes da UTI em Caldas Novas, e por todo amor com o qual você trata sua equipe de enfermagem. Obrigado, Alexis Nicole, por falar a verdade acerca da vida na Escola de Enfermagem e aliviar a tensão que sinto por pensar que não serei um bom profissional. Obrigado, Marina Barardi, por inspirar vidas a seguir o caminho do trabalho humanitário pela Saúde Global. Obrigado, Lucas Pereira de Melo, porque suas aulas abriram os meus olhos para problemas sociais em saúde que eu nem sabia que existiam. Obrigado, Joliana Saunders, por mostrar que as barreiras na vida são, na verdade, oportunidades de crescimento. E, por fim, obrigado, Florence Nightingale, por ser nossa precursora e por ser muito à frente do seu tempo, visando o melhor para seus pacientes quando ninguém mais o fazia.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s