Texto da semana

Maio Laranja: como acolher e escutar a criança ou o adolescente sobrevivente de violência sexual?

Por Filipi Lopes Araujo (Pepe) – TLXVI da EERP

O mês de maio tem sido utilizado há algum tempo para discutir e conscientizar acerca do tema “violência sexual contra crianças e adolescentes”, devido a relevância do mesmo e a alta incidência dessa forma de violência contra esse público em específico, e também porque a rede de apoio e as estratégias de encerramento do ciclo de abuso de menores são pouco trabalhadas publicamente. Por isso, também escrevo este texto, a fim de informar o leitor sobre como estabelecer o primeiro contato no momento em que a criança se aproximar para relatar a violência.

Portanto, para começar, é muito importante ter em mente o que realmente é caracterizado como violência sexual: trata-se de qualquer ato sexual indesejado ou tentativa do mesmo, e ainda comentários, interações ou contatos de natureza sexual que sejam indesejados, ou a sua tentativa. Contudo, vale lembrar que esses mesmos atos e interações, ainda que desejados e fora de um contexto de comprovada coerção e relação de poder entre violador e sobrevivente, se ocorrerem com crianças ou adolescentes menores de 14 anos, configuram-se como crime.

Além disso, conversas por aplicativos que tenham a intenção de convencer a criança ou o adolescente a se encontrar com o abusador presencialmente para consumação do ato, ou que incentivem ou obriguem a criança/adolescente a enviar fotos íntimas, configuram-se como violência, mesmo acontecendo em ambiente virtual. E todas essas manifestações podem acontecer com qualquer pessoa, de qualquer idade, classe social, raça e gênero, mas quando o foco é a população infantil/juvenil, cerca de 70% dos casos acontecem dentro da própria família, por pais, avós, tios etc., sendo a maioria contra indivíduos do sexo feminino (o que não significa que os meninos não sejam violentados também).

Tendo isso em mente, o próximo passo é pensar em como conversar com essa criança ou adolescente. A princípio, quando essa pessoa te procurar para abrir a situação que ela esteja vivendo, com certeza será porque ela enxerga em você uma segurança que permita a exposição da experiência que ela viveu/está vivendo.

Logo, no momento do relato é extremamente importante que a sua escuta seja ativa e empática (isso significa prestar muita atenção nas palavras escolhidas pelo sobrevivente da violência), por isso, não interrompa enquanto a criança ou adolescente estiver falando, e jamais diga “por que não me contou isso antes?” Porque frases como essa aumentam a culpa que o indivíduo já está sentindo pelo que aconteceu (visto que a violência e o caráter manipulatório dos atos são confusos e difíceis de discernir). Outro detalhe essencial para esse momento de conversa é que você evite a revitimização, ou seja, não pergunte detalhes que não foram ditos, porque o mais importante não é você saber especificamente o que aconteceu, mas sim garantir que a criança/adolescente seja acolhida(o).

A revitimização ocorre também quando o indivíduo precisa contar a mesma experiência para várias pessoas (contou pra você, então foi para a delegacia e contou ao delegado, depois contou para a conselheira tutelar, e assim por diante). Isso é prejudicial para a saúde mental, porque ao repetir a história, ou ao contar detalhes, a/o sobrevivente revive a experiência. Por isso é importante que você, ao ouvir o relato, se responsabilize por entrar em contato com o órgão responsável na sua cidade (conselho tutelar, delegacia ou outros), evitando que a criança/adolescente tenha que contar de novo o que aconteceu para pessoas que ele ou ela não conhece. Caso esteja com medo de outros saberem que você denunciou, este ato pode ser feito pelo Disque 100, que é anônimo.

Antes de realizar a denúncia, é importante dizer à criança ou ao adolescente o que você irá fazer (se irá na delegacia, no conselho tutelar, se ligará no Disque 100 etc.), para que ela saiba que algo está sendo feito e que ela tem controle do que está acontecendo com a experiência que relatou a você. Cada cidade tem um fluxo para encaminhamento e resolução desses casos, então é relevante que você represente a criança ou adolescente nesse processo, demonstrando apoio e compreensão para estar ao lado dela no decorrer de tudo, que com certeza será emocionalmente desgastante. Por isso evitar a culpabilização (dizer “por que você não buscou ajuda antes?”) e a revitimização, para que o impacto sobre o sobrevivente seja o menor possível.

Mas como identificar sinais e sintomas de violência sexual em uma criança que não verbaliza o que aconteceu? Antes de escrever essa parte, quero deixar claro que talvez as manifestações da criança/adolescente que citarei aqui não sejam decorrentes de abuso sexual, apesar de existirem pesquisas que apontem tais manifestações como resultados desse tipo de violência, por isso é necessária uma grande rede de apoio na qual haja confiança e abertura para a discussão desse tema e, se for o caso, proteger o indivíduo de novos incidentes.

Tendo dito isso, podemos pensar em como identificar esses sinais em crianças que tenhamos intimidade (filho, sobrinho, neto etc.). Essa criança, caso já esteja um pouco mais desenvolvida, pode voltar a adotar comportamentos infantis (xixi na cama, dificuldade de controle de esfíncteres, aumento de dependência de outras pessoas etc.), pode se tornar hiperssexualizada (frequentemente brinca fazendo alusões a práticas sexuais, ou repete os atos com outras crianças), registra cenas ou figuras sexuais em seus desenhos e muda repentinamente o seu comportamento ou humor (desenvolve novos medos, resiste em ficar próxima de algumas pessoas, perde interesse em atividades que gostava, muda a maneira de vestir-se, torna-se introvertida sem motivo aparente etc.).

Caso você tenha liberdade para dar banho na criança, busque reparar se há vermelhidão ou arroxeados nas genitais, ou até mesmo se a criança sente dor durante a higienização dessas partes ou do ânus. É importante também atentar-se para o surgimento de verrugas nessas partes, ou de feridas persistentes e que você suspeite serem diferentes do comum. Observe a presença dessas feridas nos lábios ou gengivas e de arroxeados no “céu da boca”. Caso esteja em dúvida, leve-a ao dentista ou outro profissional de saúde, que poderá lhe ajudar a identificar a causa das feridas no corpo e na boca.

Outros problemas também são percebidos tanto nas crianças como nos adolescentes, tais como o desenvolvimento de depressão, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), transtorno dissociativo de personalidade (o indivíduo apresenta diversas personalidades diferentes que alternam entre si), despersonalização (ele sente como se estivesse se observando do lado de fora de si, como se a realidade fosse um sonho), entre outros transtornos e sintomas psiquiátricos. Caso você suspeite que a criança ou o adolescente que possui contato esteja passando (ou tenha passado) por violência sexual, é essencial a busca por ajuda especializada de um psicólogo(a), pois a terapia irá ajudar a pessoa a entender, aceitar e lidar com o que ela vivenciou, e quanto mais cedo essa ajuda for obtida, menores são os danos para a saúde mental.

Por fim, muito poderia ser dito sobre essa violência, tida como um problema de saúde pública pela Organização Mundial da Saúde, mas a intenção do texto é iniciar um debate sobre o acolhimento dos sobreviventes, visto que esse contato, feito da forma adequada, pode resultar em proteção para a criança ou o adolescente, prevenção de novos incidentes e mitigação do sofrimento e confusão advindos da experiência traumática. Obviamente que o enfrentamento do ciclo da violência não depende só de nós, mas também de toda uma organização governamental e de diversos sistemas juntos: de saúde, legislativo, político, econômico, educacional etc., pois este é um problema com muitas vertentes. Contudo, acolhendo bem, podemos ser o início de uma movimentação que pode reduzir ou acabar com o sofrimento de alguém.

1: HABIGZANG, Luísa F. et al . Fatores de risco e de proteção na rede de atendimento a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. Psicol. Reflex. Crit.,  Porto Alegre ,  v. 19, n. 3, p. 379-386,    2006 .   Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-79722006000300006&lng=en&nrm=iso>. Acesso em 14  de maio de  2021.  http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722006000300006.

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