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SOPHIA CHABLAU E UMA ENORME PERDA DE TEMPO

Por Thadeu Vilas – TXII – FDRP

O álbum de estreia da banda paulistana Sophia Chablau e uma Enorme Perda de Tempo (álbum homônimo) é um trabalho, no melhor sentido da palavra, excêntrico. São cerca de 23 minutos em que viajamos entre pensamentos caóticos, guitarras distorcidas e composições inusitadas, transformando o álbum em uma experiência divertida de se ouvir.

O trabalho já começa com a elétrica Pop Cabecinha, que recepciona o ouvinte com um grito e já o joga em uma correnteza de pensamentos, à primeira ouvida, desconexos (E as brigas dos casais que se unem só pra discutir / Me deixam refletindo se nós somos grandes interruptores de luz / Se sou mais ravi shankar ou jesus) carregado pela guitarra elétrica que progride de forma sem dar pistas de onde vai parar, até que então se encerra sem aviso prévio. A imprevisibilidade da obra aparece novamente: se há alguns segundos estávamos nos afogando no ritmo acelerado, agora flutuamos por uma melodia calma e serena, a delicada Se Você, uma baladinha íntima que transmite todas as inseguranças da autora sobre seu par romântico (Se você entendesse o que eu digo / O que eu choro / Meu amor, o que eu grito / Se você entendesse o que eu sou / Eu tenho certeza, cê não ia ficar comigo).

Traço interessante é a duração das músicas: das 9 faixas, somente duas possuem mais de 3 minutos, mas ao mesmo tempo não parece que falta algo. Cada canção foi produzida e composta de um jeito pra ser eficaz e intensa, de forma que uma canção de 2 minutos consegue transmitir mais sentimentos do que exemplares mais longos. E parte dessa tática também está presente nas composições: ainda com uma música curta, as letras não ocupam todo o espaço, dando lugar para instrumentos carregarem a experiência, e, até mesmo, ocasionalmente, o silêncio.

Mas é claro que há canções menos experimentais, como a melancólica Fora do Meu Quarto, com sua poesia acessível e instrumentais etéreos, a sensibilidade da faixa é intensificada pela repetição de suas 2 estrofes, ocasionando um sentimento de nostalgia e desolamento (Fora do meu quarto você está em qualquer lugar do mundo / Longe do meu peito qualquer canto pode ser melhor / Cada um tem sua maneira de fingir e estar bem).

Uma colaboração que acrescenta muito ao registro é – uma das queridinhas do público jovem brasileiro – Ana Frango Elétrico, que assina o disco, sem torná-lo uma cópia de seu trabalho, mas sim oferecendo um terreno para o quarteto paulistano explorar e crescer.

Longe de ser perfeito, no entanto, algumas músicas soam mais como esboço do que necessariamente um produto acabado, mas não é algo que realmente impacta de forma negativa a experiência.

Além do rock, é possível perceber momentos de flerte da banda com um jazz urbano, como nas divertidas e elétricas Debaixo do Pano e Moças e Aeromoças. A faixa que finaliza a obra é Delícia/Luxúria, a escolhida como primeiro lançamento do trabalho, que encerra o álbum com a mesma energia que começou: vocais carismáticos, letra instigante e guitarras viciantes.

Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo é um trabalho extremamente interessante e que traz uma certa refrescância para a cena musical brasileira, sendo, sem dúvidas, um dos discos mais promissores do ano.

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