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A classe médica e o Brasil das carteiradas

Por Luiz Ghiraldelli (Global) – FEARP

Calma. O tom deste texto é diferente dos demais que já escrevi para o Ócios, guardei as pedras e a acidez de costume para uma conversa bem séria, ainda mais se tratando de um tema que não domino — saúde. Convido principalmente você, aluno de medicina, para uma discussão além das muralhas da USP de Ribeirão Preto. 

Cursos da área da saúde retomaram aulas presenciais por todo país no início do primeiro semestre de 2021, algo necessário para o aprendizado de áreas práticas como anatomia em anos iniciais e clínicas em semestres mais avançados, segundo docentes e discentes. Dentre os cursos priorizados, claro, encontramos os de medicina, mantendo somente atividades essenciais de graduação e de pesquisa. A argumentação, até aqui razoável, foi duramente criticada após uma exótica flexibilização dessas atividades. Dando continuidade à tradição de entregar adereços de identificação aos calouros dos diversos cursos do campus, a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto autorizou e divulgou a entrega presencial da boina amarela. Mesmo com o aparente respeito às normas básicas de segurança, como acharam uma boa ideia fazer isso nesse momento tão crítico da pandemia no nosso país? Por que não entregar em casa por correio, buscando evitar aglomerações desnecessárias já que cancelaram as colações de grau presenciais? Aparentemente, esse foi mais um episódio do Brasil das “carteiradas”. Se você é médico ou aspirante, esse trecho já pode causar indignação por questionar diretamente uma instituição de renome. Mas, inegavelmente, a referida ação da FMRP não foi de bom tom. Não me levem a mal, conheço e admiro excelentes médicos e médicas que se dedicam por uma saúde melhor e trabalham com muita paixão. Porém, o uso desse reconhecimento da sociedade, por vezes, me parece um tanto deturpado por uma parcela desses profissionais.

Mesmo prestigiada, a classe médica brasileira anda acumulando gafes de todo o tipo quando se trata de saúde, ainda mais pública. Por exemplo, partindo de problemáticas nacionais, desde críticas ao Mais Médicos, sem proposta de um programa de capilarização do atendimento substituto e cabível no orçamento da União, passando pelo silêncio do Conselho Federal de Medicina sobre aquele que pode ser a maior experiência pós Segunda Guerra Mundial feita numa população civil (em referência ao teste de  imunidade de rebanho para covid-19 em Manaus, levando milhares de pessoas à morte). Chegando às reclamações de alguns profissionais da saúde, no geral mal remunerados e, até mesmo, destratados por médicos — como se um hospital só funcionasse com eles dentro. E, por fim, nos pacientes se queixando da falta de um olhar humano numa relação já muito desigual. Quando casos, como os descritos brevemente acima, chegam ao público, gera-se uma quebra de expectativa, justamente pelo respeito da sociedade sobre a figura do médico. Ademais, esperava-se dos discentes da FMRP, docentes e funcionários, postura ainda mais exemplar com relação à pandemia — principalmente com o fantástico trabalho de pesquisa sobre o Sars cov-2 gerado dentro da USP. No contexto universitário, porém, observa-se chocante oposto, como festas clandestinas. Inexplicavelmente, a futura geração dos médicos mais prestigiados do país parece cuspir na cara dos vivos e nos caixões dos quase meio milhão de mortos. 

Além disso, paradoxalmente, aglomerações desnecessárias e constantes podem colocar um ponto final à volta das aulas práticas e afetar o aprendizado dos alunos de medicina. Como esses hábitos não são exclusivos da FMRP, diversas faculdades com atividades presenciais correm risco semelhante. Afinal, alunos nos anos iniciais não se enquadram no Plano Nacional de Imunização (até onde vão meus limitados conhecimentos sobre saúde) e, portanto, teoricamente, não deveriam ser vacinados tão cedo. Bem, pelo tom da última frase, percebemos aí mais uma “carteirada”. Alunos de ciclo básico de medicina, em todo o país, estão se vacinando como profissionais de saúde e afins, enquanto faltam doses para grupos de maior risco, incluindo discentes de saúde “da área técnica em saúde em estágio hospitalar, atenção básica, clínicas e laboratórios” — ou seja, profissionais em formação, nos anos finais do curso, realmente expostos à covid-19. Ou seja, sem meias palavras, furam a fila da vacina e, com quem pude conversar, consideram esse um direito por estarem se expondo nas aulas. Colega de campus, entendo seu ponto perfeitamente. Contudo, se exposição é um fator tão preponderante na seleção de quem será vacinado em um momento de tamanha escassez, porque garis, faxineiros, domésticas, motoristas de transporte público e demais trabalhadores altamente expostos receberam pouca prioridade e só recentemente foram incluídos como grupos prioritários em algumas cidades? A resposta é encontrada numa visão utilitarista e fria do Brasil, pois o capital humano perdido na morte de um motorista de ônibus é menor em relação a morte de um aluno de medicina. 

Socialmente, parecemos aceitar o trecho anterior com naturalidade. Estaríamos nós um pouco mortos?

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