Ócios Científico

O Desdobramento da imagem atribuída à mulher sob a ótica das obras de Górgias, Pero Vaz de Caminha, Immanuel Kant e Jean-Paul Sartre

Bianca dos Santos Soares( TXIII da FDRP)

Thamiris Delazari de Carvalho( TXIII da FDRP)

A figura da mulher e do papel o qual exerce na sociedade passaram por diversas ressignificações e transpassaram gerações em busca de sua reafirmação. É notório que a luta articulada pelos movimentos feministas, os quais tem maior notoriedade no contexto hodierno, foi crucial para que se iniciasse uma efetiva mudança nos paradigmas existentes na sociedade patriarcal mundial. Porém, mesmo em momentos anteriores à organização desses movimentos, a luta feminista se encontrava presente na mentalidade das mulheres que almejam direitos e se disponham a conquista-los, estando camufladas pelo ideal discriminatório que embasava uma mentalidade, e ainda se mostra presente em estratos da sociedade de forma menos ou mais branda.

Tendo isso em mente, é interessante a organização de um trabalho que permita compreender a evolução da imagem feminina moldada pelas lutas sociais ao longo dos anos, por meio da articulação entre autores que formularam análises a respeito do homem visto sob diferentes ópticas e em diferentes momentos da história da humanidade.

Para tal, inicia-se uma análise a respeito da figura feminina na obra “Elogio de Helena”, de Górgias e em seguida, apontar-se-á os estereótipos de gênero presentes na “Carta de Pero Vaz de Caminha”. Por meio desses escritos, busca-se a elucidação da visão à qual era atribuída à mulher nas sociedades que englobavam tais autores e os reflexos que essas imagens construídas da figura feminina geraram nos tempos posteriores. Ademais, uma análise a respeito da moral kantiana e do existencialismo desenvolvido por Jean- Paul Sartre se mostram essenciais para o desenvolvimento de um raciocínio acerca da modernidade e dos processos pelos quais as mulheres se valeram para a conquista de direitos e mudança da ordem patriarcal, um processo ainda em andamento.

O texto “Elogio de Helena” foi escrito por Górgias (485- 376 a.C.), considerado um dos precursores da sofística, o qual em seus discursos propunha-se a argumentar em favor de posicionamentos impopulares e, até mesmo, absurdos, como bem ilustra a obra citada acima. No texto, o autor defende a inocência da bela Helena, responsabilizada pela Guerra de Troia sob uma ótica ateniense na qual a mulher não possuía participação ativa na sociedade e era educada para servir ao mundo doméstico.

Segundo a mitologia grega, Helena era a mulher mais bela de toda Grécia, casada com o rei espartano Menelau, o qual devia amor e fidelidade, apaixonou-se pelo príncipe troiano Páris, com o qual fugiu, traindo o seu marido e, consequentemente, o povo de Esparta, e, assim, desencadeando o conflito troiano. Vale destacar o fato de que a história se passa em um contexto no qual as mulheres estavam submetidas ao pátrio poder do marido, sendo que o desrespeito às ordens deste era uma verdadeira afronta à sociedade familiar.

A partir do exposto, Górgias propõe-se a isentar Helena de culpa pela causa da Guerra de Troia, argumentando que as razões para tal anistia se deviam ao destino, uma vez que os deuses teriam deliberado sobre o fato; à violência física, tendo em vista que Helena havia sido raptada pelo príncipe troiano; à persuasão do discurso, que levou sua alma a ser enganada; e à força do amor, que a seduziu pelo desejo e avidez (GÓRGIAS, 2009). Desse modo, o sofista concluiu que independentemente de qual motivo se acusasse Helena qualquer um deles estava suscetível de ser anulado.

Portanto, apesar de Górgias objetivar com o seu discurso convencer os que o ouve de que se pode argumentar a favor ou contra qualquer fato/acontecimento através do poder da retórica, imagina-se as inúmeras críticas recebidas pelo sofista por estar defendendo uma mulher, culpada mitologicamente por uma guerra que envolvia o povo para qual ele discursava. Além disso, dispondo-se a analisar o texto “Elogia de Helena” sob o prisma da figura feminina, Helena é vista como um objeto de desejo por todos os seus pretendentes que a querem como parte de sua propriedade pela sua beleza admirável, ela é também instrumentalizada como causadora de uma guerra sangrenta e, considerada traidora tanto pelo seu povo como pelo seu marido Menelau, pois a virtude principal de uma mulher era, e por muitos ainda continua sendo, a fidelidade ao esposo. Logo, a inferiorização da mulher mostra-se presente no contexto em que Górgias escreveu seu texto e, ainda atualmente, em diversas situações discriminatórias e preconceituosas.

Destaca-se agora uma abordagem a respeito do primeiro contato dos portugueses com os indígenas brasileiros, mais precisamente com as mulheres indígenas, utilizando-se para isso, em grande medida, da Carta de Pero Vaz de Caminha enviada ao rei de Portugal D. Manoel I. Quando os portugueses encontraram as terras brasileiras o que primeiro os chamou atenção foi o povo que aqui habitava, como descrito na Carta, eram “pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas” (CAMINHA, 1500, p. 3). Do mesmo modo, as mulheres brasileiras causaram grande atração aos portugueses, que as trataram como sendo inocentes por não se envergonharem quando eles a olhavam, e as consideraram como sendo mais bonitas do que as europeias, como pode ser percebido nessa passagem: “uma daquelas moças (…) era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha tão graciosa que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições envergonhara, por não terem as suas como ela“. (CAMINHA, 1500, p. 5-6).

Em contraposição com o endeusamento que a imagem dos portugueses passava aos olhos indígenas, que inclusive levou mulheres a realizarem atos sexuais com esses homens em troca de objetos, como um pedaço de espelho ou um pente (BASEGGIO; SILVA, 2015, p. 20), percebe-se que muitas mulheres indígenas foram violentadas pelos colonizadores, que estabeleciam relações com várias nativas, em um contexto no qual a prática poligâmica era reprovada na Europa pela religião cristã. Dessas relações de estupros com mulheres indígenas surgiu a miscigenação do povo brasileiro, assim, os mestiços foram fruto do sofrimento das nativas.

Desse modo, o estupro tem raízes na história da colonização do povo brasileiro e perpetua-se até a contemporaneidade, o qual a cada 8 minutos há um estrupo no país, sendo que deste 85,7% são do sexo feminino, conforme os dados de 2019 da 14ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública (UOL, 2020).

Além disso, diversos são os casos noticiados pela mídia de estupro de mulheres, o qual, infelizmente, o acusado não é condenado e a vítima torna-se culpada pelo crime, em detrimento, muitas vezes, da roupa que ela se veste, como um resquício da colonização do país, em que a violência sexual foi atribuída ao estado de nudez das indígenas. A exemplo disso, tem-se o polêmico caso da Mariana Ferrer, o qual ela acusa o empresário André de Camargo Aranha de tê-la estuprado, em dezembro de 2018, em uma balada de Florianópolis, sendo que em setembro de 2020, durante a audiência do julgamento, ela foi ofendida e humilhada pelo advogado de defesa do réu e este não foi condenado devido ao fato do juiz considerar que faltaram provas que comprovassem o seu não consentimento com o ato sexual, o que fez com que caso ficasse erroneamente conhecido como “estrupo culposo”.

Nesse momento, surge a necessidade de se iniciar análises a respeito de autores que desenvolveram suas obras a partir do século XVII (Kant e Sartre), possibilitando uma visão temporal a respeito dos aspectos analisados em relação à mulher e entendendo como se deu a caminhada histórica de sua luta até a vitória por direitos.

No século XVIII, Immanuel Kant desenvolveu obras a respeito da moral humana e aspectos inseridos no campo do Direito, que merecem destaque no trabalho em questão. Em sua obra “Fundamentação da Metafísica dos Costumes” (KANT, 1785) pode-se depreender o papel do homem como ser racional e as medidas que compõem sua liberdade enquanto tal. Dessa forma, o homem livre não se deixa determinar por leis da natureza, nem se sujeita a elas, mas é apenas determinado pela sua própria lei, ao mesmo tempo subjetiva e universal, que configura o homem como senhor de si mesmo. Além disso, a análise da moral kantiana mostra-se como instrumento para dignidade humana, ao discorrer sobre o tratamento de fim dado aos homens, não configurando comportamento moral aquele que atribui característica de meio, instrumental, ao ser humano.

Feitas essas breves ponderações, pode-se analisar o papel atribuído às mulheres séculos atrás, e que ainda não completamente abolido na contemporaneidade. A mulher observada como determinação das vontades masculinas, escrava das vontades desse e submissa aos deveres estipulados por aqueles que ditavam as regras de boa conduta do meio. Além disso, a imagem atribuída a elas se prende à visão instrumental que contraria os princípios da dignidade kantiana, uma vez que a mulher é tratada como meio de satisfação das necessidades carnais masculinas e mero instrumento de constituição da família. As vontades individuais desse grupo ficam em segundo plano, devido a priorização dos interesses que estruturavam o patriarcado.

Nesse ponto, também pode-se inserir o pensamento desenvolvido por Sartre a respeito do existencialismo e humanismo, segundo o qual o ser humano é determinado por um processo constante de autodeterminação, existindo no mundo para só depois iniciar seu processo de significação (SARTRE, 1987). Esse mecanismo, no qual o ser humano encontra angústia por se ver constantemente como construtor do mundo que o cerca e influente a respeito do mundo que cerca as demais pessoas, pode ser entendido também sob a óptica dos movimentos feministas.

Isso se deve ao fato de que, a partir do momento em que as mulheres perceberam que exerciam um papel crucial para o desenvolvimento e garantia do funcionamento da sociedade, puderam se articular pela luta de direitos, inerentes ao ser humano, mas que as mesmas não possuíam, e organizar um movimento que se fortalece para alterar a mentalidade de toda uma sociedade que as via como meros meios para sua ascensão. Portanto, as mulheres, vendo a si próprias como as únicas determinantes de seus próprios futuros, configurou um importante impulso para a reestruturação social e intelectual necessária para exercerem seu protagonismo.

Conclui-se, pois, que em todas as obras abordadas neste trabalho a mulher encontra-se em situação de inferiorização e subordinação a figura masculina, sendo instrumentalizada em virtude de determinados fins alheios à sua vontade. Desse modo, apesar de ao longo dos séculos os movimentos feministas terem lutado pela igualdade e equiparação entre os gêneros, os direitos femininos ainda são extremamente frágeis, exigindo esforços sociais constante para evitar retrocessos e romper com os paradigmas herdados de uma sociedade patriarcal e machista.

Por fim, cabe apontar que diversos ainda são os empecilhos encontrados pelas mulheres para alcançar a igualdade de oportunidades e direitos em relação ao gênero masculino, principalmente no que se refere ao ambiente doméstico e familiar, o qual há grande dificuldade em se dissociar à figura feminina dos cuidados com lar e os filhos. Logo, o empoderamento feminino ainda é tema recente e que precisa ser abordado e discutido nos diferentes âmbitos sociais.






			

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