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O amor labiríntico de Variações Enigma e seu reflexo em nossos (vários) eus

Por: Victor Aragão (Didi) – T. XIII da FDRP

O amor foi, é e será sempre um dos grandes temas da literatura, seja ele romântico, erótico, familiar, dentre inúmeros outros. Se formos eleger apenas o tema amor para se analisar sob uma perspectiva literária, teremos autores que vão desde Jane Austen até Nicholas Sparks para compor um repertório diversificado de escritores e escritoras os quais trabalharam tal tema através de abordagens diferentes, em contextos diferentes, e com olhares diferentes. Em meio a um rol tão vasto, André Aciman já conseguira provar em Me chame pelo seu nome que poderia ser uma voz bastante destacada e singular ao abordar tal tema, trazendo-o por uma perspectiva muito sensível, real e, principalmente, pessoal em termos de estilo. Em Variações Enigma, o autor aprimora ainda mais sua habilidade em retratar esse tema tão complexo, aprofundando muitas reflexões deixadas em Me chame pelo seu nome, embora não se trate de uma continuação.
De maneira geral, se em Me chame pelo seu nome temos uma história de entrada na maturidade por meio de uma experiência amorosa marcante e da descoberta sexual, em Variações Enigma acompanhamos não só tal descoberta por um prisma diferente, mas também os (des)encontros afetivos de um personagem o qual tenta compreender a si mesmo e o próprio amor por meio dos seus sucessivos envolvimentos amorosos ao longo de sua vida. Em outras palavras, se naquele acompanhamos a entrada de Elio na vida adulta pelo seu envolvimento com Oliver, neste acompanhamos as encruzilhadas as quais Paul (ou Paolo) atravessa, buscando encontrar sentido em seus relacionamentos e os reflexos disso em sua trajetória.
Seria muito inadequado simplificar Variações Enigma a um livro o qual apenas acompanha as frustrações amorosas de um personagem. Como havia dito anteriormente: André Aciman possui um jeito muito próprio (e tocante) em abordar temáticas que, a priori, soam batidas e isso não é diferente nesta história. É difícil classificar Variações Enigma como um romance, uma vez que o livro possui cerca de 300 páginas e está dividido em cinco grandes capítulos os quais acompanham o protagonista em momentos distintos de sua vida. Há quem diga que tais capítulos se assemelham mais a contos do que a partes componentes de uma grande obra, dado o caráter interdependente de cada um deles. Porém, mesmo que tal interpretação seja muito pertinente, prefiro enxergá-los como capítulos de um livro uma vez que, quando juntados da maneira linear em que estão dispostos, eles contam uma história bem maior que os transcende.
Não irei aprofundar-me em todos os aspectos que cada um dos cinco capítulos traz. Porém, aqui, destaco o elemento mais notório de alguns deles. É no primeiro capítulo (Primeiro amor) que, além de podermos imergir na escrita sensível de André Aciman – e, em determinadas passagens, entrar em contato com uma das coisas que o autor mais sabe fazer com maestria: unir de maneira dialética o lirismo poético de sua escrita com o erotismo da cena mostrada -, acompanhamos os primeiros lampejos do desejo os quais Paolo sente ainda na pré-adolescência. Aciman constrói tal parte com tamanha habilidade que provavelmente muitos leitores se lembrarão de seus tempos de pré-adolescência passando pelos dilemas pelos quais Paolo também passa (seja qual for a sua orientação sexual). Para os nostálgicos da Riviera italiana de Me chame pelo seu nome, certamente estes terão seus corações acalentados ao lerem essa parte.
Contudo, é no terceiro (Manfred) e no quarto (Amor estelar) capítulos que a temática do livro é desnudada de maneira mais sutil e, ao mesmo tempo, reveladora. Por meio de sucessivos fluxos de consciência, acompanhamos de maneira bastante sensual o desejo, a insegurança e as fantasias que Paul nutre pelo seu colega tenista. É nessa parte que adentramos ainda mais fundo em sua subjetividade, defrontando-nos com muitas incógnitas as quais o acompanham ao longo da vida. Se em Manfred temos uma perspectiva bastante sensorial do lado afetivo de Paul, é em Amor estelar que suas encruzilhadas amorosas ficam truncadas de maneira ainda mais evidente, não apenas restritas ao campo sensitivo, mas expandindo-se ao campo sentimental. É na difícil costura entre esses dois campos que o enigma da trajetória pessoal de Paul vem à tona.
Amor estelar revela a força de um amor marcante em determinado momento da nossa vida no qual, por conhecermos a pessoa certa (na hora errada), embarcamos em um espaço e tempo os quais, mesmo que curtos, transcendem a realidade e a nós mesmos. Por outro lado, se tal amor marca-nos por toda vida, o amargor do arrependimento de oportunidades perdidas também o acompanha, evidenciando o caráter efêmero de muitas das nossas relações – e de alguns de nós propriamente ditos.
Aciman apropria-se (no melhor sentido da palavra) do conceito de “amizade estelar”, do filósofo alemão Friedrich Nietzche, para cunhar o “amor estelar”: amores hipotéticos os quais, muitas vezes graças a nós mesmos, não vivenciamos ou vivenciamos de maneira muito breve, mas que não são necessariamente irreais ou ilusórios por causa disso. É nesse ínterim que vislumbramos, muito rapidamente, nossos outros eus os quais habitam outras realidades em outro tempo e espaço, e que nunca conheceremos, mas dos quais podemos obter pequenas faíscas de nitidez e notar o quão poderíamos ter dado certo (ou não) com uma pessoa que nos apaixonamos em um dado momento. Nesse sentido, a temática do arrependimento é explorada de maneira muito profunda e, a meu ver, sofisticada.
Assim como em Me chame pelo seu nome, Aciman preenche sua obra com inúmeras referências à arte e à filosofia. Os fluxos de consciência também são outro grande ponto a se destacar no livro e talvez isso agrade muitos leitores e desagrade outros. Agrade porque talvez muitos vejam a si mesmos nas inseguranças e receios da mente de Paul no momento em que se relaciona (ou tenta se relacionar), e desagrade pelo fato de Aciman explorar isso ao máximo, esgotando tal recurso a ponto de cansar a leitura em alguns momentos.
De todo modo, o principal mérito do autor na obra é construir um personagem real com conflitos internos reais, mergulhando de maneira muito intensa e verdadeira na subjetividade do protagonista. Variações Enigma não é real devido apenas à complexidade de seu personagem principal ou à habilidade com que o autor o retrata, mas também pela autenticidade do caráter passageiro dos muitos relacionamentos que Paul atravessa, bem como a sua volubilidade afetiva. É nessa volubilidade que nos defrontamos com as mais variadas respostas para um único mistério – o amor – que, por mais sofisticadas que sejam as técnicas de desvendá-lo, sempre conservará em algum grau o seu caráter indecifrável. Em síntese, Aciman constrói um retrato muito fiel dos tempos atuais e de muitos dilemas pelos quais todos nós passamos em alguma medida.
Ressalto que o livro não é perfeito e, por isso, aponto mais uma vez que ele agradará mais alguns do que outros. Talvez alguns achem Paul demasiado dramático e tolo por, em determinados momentos, repetir sempre os mesmos erros ou fazer grandes digressões acerca de diversos pormenores. Talvez alguns se incomodem pelo aspecto antiético que Paul tangencia em algumas das suas relações. Talvez outros apenas se identifiquem com as encruzilhadas atravessadas por ele. Contudo, acredito ser quase impossível o leitor não se pegar refletindo sobre o amor, quer tenha gostado do livro ou não. Por isso acho que seja imprescindível a leitura deste. Fazer-nos refletir sobre os laços humanos em tempos tão difíceis e de modo tão genuíno certamente será a melhor recompensa em conhecer esta obra de André Aciman.

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