Texto da semana · x

A volta pra casa

Por: Quatro de Abril

Acabou mais um dia. Estou contente. Cansada, suada, com vontade de banho. Espero meus amigos na luz da escola. Andamos, juntos pelo frio. É a nossa rua, mas é uma avenida, cheia de bares, gente, fumaça, barulho, ratos.

Eles entram no metrô, e quando sozinha eu também viro um rato. Está na hora de correr.

Espero a luz verde balançando sobre meus calcanhares. Seguro meu celular enfiado na cintura da calça. Como uma arma, como um terço.

O resto das minhas coisas estão nas costas. Atravesso a avenida e repasso o roteiro: “Só tenho cadernos, estou vindo da escola. Não tenho celular. Leva o dinheiro, pode levar.”

Chego perto do ponto de ônibus, desvio dos ratos. Todos olhamos para frente, nunca uns pros outros. Mas eu os vejo: todos de máscara de pano, menos alguns. Olho com nojo para os ratos descobertos. Fujo deles.

Descendo mais a rua, deixo de ser rato e viro siriri: correndo atrás dos postes. Meus sapatos galopam no chão. Uma mulher se esconde de mim.

Viro a rua, estou chegando. Essa parte é a mais escura. A densa umidade do ar vira garoa. O asfalto escuro e molhado reflete a luz dos mercados e condomínios. Viro um cachorro.

Não tenho como me esconder, só corro mais rápido. Sinto o pano molhado em meu rosto e fico com medo. Ele não serve pra nada agora, só pra esconder minha boca ofegante.

Viro a esquina. “Essa rua não”, ouço minha mãe dizer. Mas a vontade de virar gente fala mais alto.

Passo pessoas e mais pessoas. Meu coração arde como brasa no meu peito. Estou perto de casa, estou chegando.

Essa é a última parte. Você está quase lá. Só falta aquela esquina com a árvore escura, que às vezes abriga pessoas dormindo.

Preste atenção, se vir alguém, troque o lado da rua.

Meu porteiro me vê. Eu aceno com a cabeça, ele abre a porta. Me pergunto o que ele pensa de mim, chegando assim, na chuva.

Chamo o elevador. A luz da entrada bonita não combina comigo.

Chego em casa, lavo as mãos. Deixo minha mochila e celular no chão da cozinha. Tiro a máscara e respiro pela primeira vez em horas. Tomo um banho.

Quando saio de lá, sou uma pessoa de novo. Minha mãe me reconhece e pergunta do meu dia. Limpo meu celular com álcool, deito no sofá e mando mensagem pros meus amigos: “Hoje foi muito legal, que saudade de vocês”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s