Frames de Ofício

Pieces of a Woman (2020)

Por Maria Clara Garcia (Turma XIV da FDRP)


A perda de um filho, já vista como uma dor imensurável, é retratada no filme “Pieces of a Woman” com uma delicadeza que comove o público desde os primeiros takes, tanto por meio da paleta de cores do longa-metragem, quanto pela brilhante atuação de Vanessa Kirby (digna de uma indicação ao Oscar 2021), além de um roteiro, de Kata Wéber, recheado de emoção, internalidade psicológica, subjetividade e metáforas. 

Já nos primeiros 30 minutos de filme, “Pieces of a Woman” apresenta ao espectador diversos planos-sequências do trabalho de parto da personagem principal, Martha, a qual, com sua atuação brilhante – unida ao trabalho do diretor, Kornél Mundruczó – passa a agonia e aflição desses momentos únicos, tocando quem assiste o filme e passando o momento retratado de forma muito realista. Assim, os primeiros 30 minutos de filme são marcados por grande tensão, acabando, no entanto, com a queda brusca dessa atmosfera a partir do nascimento do bebê e sua rápida passagem em vida, pois, logo após um minuto, Martha presencia a morte de sua filha. Nesse contexto, a forma como se cursa os primeiros minutos de filme conquista a empatia de muitos e prende-os ao fim dessa história.

Assim, sendo a primeira meia hora de filme um “soco no estômago”, o que fez com que muitos dos espectadores desgostassem do filme, todo o decorrer do longa-metragem em questão abraça a pessoalidade de Martha, a qual transporta ao público seu luto e sua luta interna em aceitar a morte de sua filha, bem como o fim de seu casamento e brigas com alguns de seus familiares. Desta forma, o filme, até suas cenas finais, atenta-se na personagem principal, deixando o sofrimento do marido de Martha, Sean, em segundo plano, explorando pouco o papel do homem na sua recomposição, mostrando apenas alguns episódios de seu luto. Tal fato pode acabar por incomodar parte do público devido a uma certa falta de profundidade no homem, além, também, da pouca exploração dos outros personagens da trama. 

Além disso, outro elemento interessantíssimo e, arrisco a dizer, belo, é a presença de mensagens implícitas que o filme possui. A exemplo disso, tem-se a cronologia do luto de Martha baseada no tempo em que uma ponte, a qual Sean auxiliava na construção, é construída. Nesse sentido, a reconstrução dos “pedaços” de Martha (retomando a ideia do título do filme) segue a construção dos pedaços de uma ponte. 

Ademais, outra mensagem implícita presente é o significado que se dá ao cheiro de maça (atribuído a uma lembrança que Martha tem de sua filha) e a macieira frondosa ao final do filme, sendo que esta dá o significado de que a personagem principal conseguiu superar o luto e seguir em frente sem fardo. 

Assim, apesar de não abarcar com profundidade o luto das outras pessoas envolvidas, como o de Sean, o filme leva o público ao interior dos sentimentos de Martha, podendo incomodar pela sinceridade e chuva de realidade que o filme retrata.


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