Ócios Queer

Explicando o significado do Mês do Orgulho (Pride Month)

Por Filipi Lopes Araújo (Pepe) – 66 da ENF

Junho é o Mês do Orgulho LGBTQIA+, sendo dedicado para a conscientização e o combate da violência contra pessoas queer. Trata-se de um movimento afirmativo que busca ressignificar a vergonha que nos é atribuída (de diversas formas) desde muito cedo pelo fato de não nos encaixarmos na cisheteronormatividade, ou seja, por não agirmos socialmente de acordo com o que se espera de um homem (para os que nasceram com o sexo masculino) ou uma mulher (para as que nasceram com sexo feminino), e isso significa não sermos héteros, não nos identificarmos com o sexo de nascimento ou performarmos nosso gênero de uma maneira “não adequada” ao nosso sexo.

Mas talvez você esteja se perguntando quando essa imposição de vergonha começa e por que ela é tão significativa a ponto de ser necessário a criação de um movimento que diga “você não é pior por ser queer”. Então, para clarear as ideias, começo dizendo que a vergonha é imposta nos primeiros anos da nossa vida, quando manifestamos interesses que escapam o socialmente esperado. Por exemplo: sou uma criança do sexo masculino que, ao começar a brincar de boneca, usar o sapato da mãe, fazer uma performance de uma cantora famosa, escuto a frase “garoto, para com isso, isso aí é coisa de viado”. Então toda vez que a palavra “viado” é usada, eu sei que ela carrega um significado negativo, porque as pessoas a dizem quando querem que eu pare de agir de determinada forma.

Depois de um tempo, a frase “isso é coisa de viado” vai aparecendo em coisas muito mais intrinsecas, como a maneira que eu falo, ando, me visto e expresso afeto por aqueles que amo. Posteriormente, descubro que viado (o termo pejorativo usado para me ofender e me forçar a parar de me comportar como o faço) é o homem que gosta de outro homem, o que coincide com as atrações que carrego dentro de mim. Logo, todo aquele significado ruim que as pessoas me diziam sobre a palavra “viado” já não é algo externo e distante, porque o viado sou eu.

E é nesse momento que a vergonha (extremamente prejudicial à saúde socioemocional) começa a fazer parte do meu desenvolvimento, porque aprendo que ser viado é algo vergonhoso, indesejado (pelos outros), que traz sofrimento à família, é um ser que não é homem, é nojento, depravado e incapaz de amar e ser amado. Se tudo isso é ser viado, e o viado é o homem que gosta de homem e eu sou um garoto que gosta de garotos, por extensão eu sou esses significados que os outros atribuíram. E que má notícia pra mim, porque sendo assim eu quero me esconder, não quero que ninguém saiba que desejo pessoas do mesmo sexo que o meu, porque se isso acontecer, graças ao estigma, não serei eu mesmo diante deles, mas sim serei a encarnação da ideia distorcida que eles têm do que é um homem atraído por homens.

Esse é apenas um exemplo (de muitos) que acontece na vida de pessoas queer e que nos faz sentir tão deslocados em um mundo que dita normas nas quais provavelmente nunca iremos nos encaixar. Percebe que é algo que acontece no campo das ideias e das emoções? A questão é que tudo isso culmina na sociedade em formato de exclusão, violência, falta de representatividade, desrespeito aos nossos direitos humanos básicos e descaso político, através da negligência de políticas públicas que promoveriam equidade para essa população em específico.

Então, para combater todas estas expressões de preconceito surge o Mês do Orgulho, comemorado em junho, para a defesa das minorias sexuais e de gênero contra violências que começam na nossa infância e nos acompanham durante todo o ciclo vital, nas diversas esferas da vida. Neste mês, as causas que buscam garantir equidade e respeito à humanidade de pessoas queer são evidenciadas e legitimadas através dos esforços da comunidade LGBTQIA+ e de outros indivíduos agraciados com sensibilidade para questões que podem não tocar neles diretamente, mas que atingem brutalmente essas minorias. Por fim, convido você a ser um desses indivíduos que minimamente entendem o nosso sofrimento e ajudam, no cotidiano, a promover os nossos direitos, garantindo que a vergonha e o descaso sociopolítico que nos acompanham não prosperem.

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