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Afinal, o que é um cursinho popular?

Por Ketrin Cristina da Silva, turma LXIX Medicina – FMRP – USP

As instituições de Ensino Superior no Brasil foram criadas para atender aos interesses de uma elite branca e masculina, como forma de manutenção de seus privilégios. Assim, as classes trabalhadoras permaneceram apartadas do direito à Educação.

Desde 1915, os exames vestibulares constituem a principal forma de ingresso em uma universidade, sendo que o nível de conhecimento exigido nas provas ultrapassa a (má) qualidade do Ensino Básico oferecido nas escolas. Infelizmente, os alunos mais pobres passam a enfrentar dificuldades maiores de ingresso nas universidades de grande prestígio.

Nesse contexto, a abertura de um cursinho popular objetiva amenizar as iniquidades a que as classes trabalhadoras estão submetidas. O cursinho popular quer ver um diploma nas mãos do filho da empregada doméstica. Quer levar uma oportunidade para quem o Estado negou direitos.

Percebe-se, então, que o cursinho popular nasce do inconformismo com as injustiças sociais. Portanto, o cursinho popular é uma decisão POLÍTICA. Uma política revolucionária, de transformação e em busca da igualdade.

Esse posicionamento, de forma automática, coloca quem constrói a Educação Popular do lado oposto ao governo atual. O Governo Bolsonaro tem efetuado cortes tanto na Educação Básica quanto no Ensino Superior. Consequentemente, as instituições públicas estão reduzindo o número de vagas oferecidas, por não terem condições de pagar as contas. De fato, podemos observar uma diminuição do número de cursos ofertados no Sisu e vestibulares no meio do ano. Para o aluno, isso implica mais seis meses de estudo e uma concorrência maior nos exames de verão.

Além disso, o atual governo tem desmontado as agências de fomento à pesquisa: CAPES e CNPq. Isso dificulta um ensino de qualidade pela fuga de cérebros do país, bem como pela limitação de recursos para que os estudantes realizem projetos de iniciação científica. Em uma perspectiva mais ampla, submete o país ao atraso tecnológico e dependência externa.

O cursinho popular é um árduo defensor da Educação e do desenvolvimento do país. Defensor da emancipação dos sujeitos, da aquisição de autonomia. Defensor de uma sociedade igualitária, da democratização do ensino. Defensor da ciência, da universidade pública, gratuita e de qualidade.

Essas convicções o afastam da neutralidade. Afinal, posições neutras em situação de opressão nos colocam ao lado de quem oprime. Perpetuador do legado de Paulo Freire, o cursinho popular quer uma educação libertadora.          Liberdade é uma palavra antagônica a autoritarismo. No mesmo campo semântico de autoritarismo se juntam as palavras censura e silenciamento. Por isso, é incabível que ataquem a liberdade de cátedra dos professores por se sentirem desconfortáveis com posições divergentes. O cursinho popular confere A TODOS o direito à palavra.

A esse respeito, defendemos um espaço democrático. Tanto é verdade que alunos com as mais variadas posições políticas são acolhidos por nós.  Todos são bem vindos. Até mesmo aqueles que discordam de nós. Esse lugar está sempre aberto à escuta e ao debate. Afinal, democracia exige maturidade para conviver com ideias múltiplas.

Por isso, faço um convite aos alunos para refletirem sobre sua posição no mundo. Pensem sobre seu lugar de origem, sua classe social, seus sonhos para o futuro. Desenhem mentalmente o país que almejam construir, onde desejam viver.

Depois disso, busquem fontes sobre o percurso educacional do Brasil. Busquem o número de universidades públicas existentes.

Procure saber quantas universidades cada governo inaugurou. Procure saber qual perfil social entrava na universidade pública antes do sistema de cotas.

Talvez você se entristeça ao se deparar com as desigualdades.  Saiba que partilhamos desse mesmo sentimento de tristeza. A nossa tristeza é o que nos moveu para a decisão política de estar aqui, em um cursinho popular. Ou seja, a nossa indignação vira ação pedagógica.

Nós, gestores e professores do cursinho popular, escolhemos um posicionamento. Não compactuamos com a injustiça social e certamente vamos nos opor a qualquer governo que apregoe o negacionismo científico e o emburrecimento da população.

Dessa forma, nos colocamos do seu lado, aluno. A nossa dedicação diária é por você. Escolhemos segurar sua mão e dar tudo o que temos para que você supere os desafios. Queremos ver você ultrapassando barreiras. O seu sucesso faz parte da nossa decisão política.   

            Como diz Emicida, nos vemos no pódio!

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