Ócios Queer

O peso do padrão de beleza sobre os jovens gays

Filipi Lopes Araujo (Pepe) – 66 da ENF

Tenho acompanhado no YouTube alguns vídeos que falam sobre como os padrões de beleza são nocivos à saúde mental e social dos indivíduos, além de serem efêmeros e de difícil alcance quando se leva em consideração as diferentes formas corporais, metabolismo e fatores genéticos. Contudo, ainda não encontrei nada que falasse sobre os padrões que são impostos aos jovens gays tanto pela mídia quanto pela cultura. 

Por isso percebo a necessidade de falar sobre, além de notar essa pressão atuando em mim de formas que eu não havia pensado antes. Então, para começar, quero refletir sobre o ideal do corpo musculoso e sem pelos. Não é difícil encontrar nos vídeos de música pop e em séries e filmes que finalmente começaram a incluir homens gays no enredo, personagens brancos, altos, de porte atlético, bunda grande e sem pelos. Esses mesmos personagens são vendidos como lindos, desejáveis, legais e de boa reputação, enquanto os que diferem deste padrão estão, geralmente, sem um par romântico e carregam uma representação estereotipada, sugerindo uma certa ideia de que para ser desejado pelos outros homens, é necessário ser daquele jeito, o que obviamente está longe de ser o perfil corporal da maioria. 

Qual o resultado disso? Ouso dizer que é uma parcela considerável de jovens gays ainda mais inseguros (como se não bastasse todos os outros problemas adquiridos pelo simples fato de não ser hétero), desgostando do próprio corpo e adotando para si padrões estéticos que podem ser muito incoerentes com as características físicas que eles mesmos apresentam. Então se o jovem naturalmente tem muito pelo, a depilação se torna uma forma de ganhar segurança diante dos outros; ou ainda se não possui a bunda dos “caras bonitos” do Instagram, os exercícios para pernas e glúteos se tornam uma exigência imposta sobre si. 

Com certeza existem muitos outros padrões de beleza na comunidade gay que pesam sobre os jovens que nela se identificam, como o da cintura fina e barriga trincada, cabelo liso, entre outros. E o que realmente me preocupa é em como isso pode transferir o nosso valor para a maneira como nosso corpo se apresenta, nos fadando ao fracasso se não nos encaixarmos no padrão. E aqui lê-se fracasso como a ideia de solidão (ou a solidão efetivamente), rejeição e inadequação. 

É ridículo – ao mesmo tempo que muito fácil – pautar nosso conceito de beleza na nova moda, visto que ela dura pouco e foi feita para apenas algumas pessoas, as quais conseguem se encaixar no padrão. É uma luta que já começa na derrota para muitos. E o pior resultado disso é a incorporação desses padrões de forma tão vigorosa a ponto de resultar em real exclusão daqueles que não os alcançam (o que já estou cansado de ouvir de amigos menos adaptados à moda corporal do momento). 

Por isso eu te convido a refletir criticamente sobre o que você considera belo no que diz respeito ao corpo dos outros homens, porque talvez isso tenha sido socialmente imposto de uma forma bem discreta, e pode estar afetando drasticamente a maneira como você enxerga a si e aos outros. Para resolver essa questão comigo mesmo e para poder me aceitar melhor, tenho buscado olhar a beleza existente em todos os corpos, de todas as formas, abandonando a ideia de que o belo é só o musculoso, de cintura fina, branco e alto. Nisso, eu, lentamente, começo a olhar para o meu corpo repleto de cicatrizes, pelos e músculos desavantajados e encontrar beleza, traços que eu posso aceitar. 

Aí fica aquela pergunta: mas e se eles não gostarem de mim porque tenho tal característica? Bom… Aí é problema deles! Privar-se de conhecer e se relacionar com o outro pela inadequação a um padrão é responsabilidade de quem assim procede. Eu sei que é muito difícil lidar com essas pressões estéticas e os seus significados, afinal, tô na mesma jornada. Mas por favor, meu, vamos começar a amar esse corpo aí, com ou sem pelo, alto ou baixo, bunda pequena, grande ou quadrada. Não somos apenas essas características e elas não precisam ser nossas inimigas. O verdadeiro amor e aceitação não dependem delas. 

Vale o comentário: quando falo de amor e aceitação, não me refiro apenas a apresentação romântica dessas virtudes, mas sim a elas como um todo. Infelizmente esses padrões podem se infiltrar tão profundamente em nossas crenças a ponto de acreditarmos que para sermos incluídos e amados pelos outros, precisamos ter uma aparência física que corresponda a atual tendência, o que não é verdade, porque somos muito mais do que um corpo. 

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