Política Nacional e Internacional

A grande aposta de Bolsonaro deu (quase) certo

Por Luiz Ghiraldelli – FEARP

1 litro de leite longa vida integral, ½ litro de óleo de soja, 250g de margarina. Esses produtos podem significar mais sobre nossas vidas do que você imagina. Te convido para uma conversa, nada acadêmica, sobre os recentes e futuros efeitos da corrupção no país.  

Ao longo do governo Bolsonaro foi muito comum o uso de termos depreciativos contra a inteligência da Presidência da República, coitadinho. “Burro! Idiota! Como isso foi parar lá?” Mas, como gosto sempre de dizer, na política a imagem transmitida ao público é uma criação planejada. O homem simples, bruto e estúpido encantou setores conservadores — além de ser uma ótima cortina de fumaça para a grande aposta de Bolsonaro, exposta recentemente. A aparente estupidez nas escolhas de Cloroquina e Ivermectina teve sua estratégia ainda mais clarificada com o caso da Covaxin — no melhor exemplo pague 10, leve 1. 

Para exemplificar, encontramos na economia uma vasta área de estudo sobre teoria dos jogos — resumidamente sobre estratégias de escolhas. Nela, podemos visualizar as estratégias de cada jogador e os benefícios — ou malefícios — causados pelas suas escolhas. Claramente, o conjunto “sem lockdown” + “sem vacina” era o pior possível para o país, se o objetivo fosse maximizar o número de pessoas salvas e o desempenho econômico brasileiro. Não precisa ser especialista para observar isso, afinal, o custo humano desta estratégia de “imunidade de rebanho” era estimado em cerca de 1 milhão de vidas, apenas em 2020 — felizmente esse plano foi parcialmente desmontado. Nem mesmo outras figuras com tendências autocráticas, como Vladimir Putin da Rússia, abraçaram o discurso anti-ciência e suicida adotado por aqui. O governo tinha outro objetivo para maximizar, mas qual seria? Nesse que se desenha como o caso mais escandaloso da história recente do Brasil, numa troca direta entre vidas e dinheiro, vamos aos números da continha de padaria.

Primeiro, começaremos com os “recuperados” — muitos com sequelas graves que persistirão por décadas — tão comemorados pelos delirantes. Afinal, essas pessoas nem deveriam ter se contaminado. Para cada dia internado em UTI, uma pessoa custa entre R$2.500,00 e R$3.000,00, segundo material veiculado pela Unicamp. Seguiremos com a estimativa menos custosa. Apenas multiplicando o número de leitos ocupados, ao longo da pandemia, por confirmados com covid-19 pelo seu respectivo custo diário, segundo informações abertas do DataSUS, temos o valor de R$14.943.717.500,00. Até difícil de ler esses quase R$15 bilhões! Sobre os sobreviventes, apesar do total ultrapassar os 16 milhões, vamos considerar que somente os internados em unidade intensiva terão complicações mais crônicas — algo nada garantido pelas últimas evidências clínicas —, afetando a produtividade e qualidade de vida. Novamente fazendo uso das informações abertas, das 1.801.793 pessoas saídas de UTI’s com seus casos confirmados como covid-19, usando como proxy uma outra doença vinculada a dores crônicas — a artrose —, cerca de 6% poderá ter uma aposentadoria precoce. Mesmo considerando o valor mínimo para todos, isso corresponderá a um aumento de R$1.431.856.800,00 nos custos anuais com a previdência, algo em torno de R$23 bilhões ao longo da vida dessas pessoas forçadamente aposentadas mais cedo.

Partindo agora para os falecidos, com uma estratégia para salvar vidas, o Governo poderia ter salvo mais de 400 mil pessoas. Fazendo uma multiplicação grosseira com a média de arrecadação per capita de 2019 da Secretaria da Fazendo do Estado de São Paulo e  mais dez anos de vida em média, chegamos ao prejuízo de R$15,60 bi. Quinze bilhões de reais a menos em arrecadações, só de impostos estaduais. Nem preciso comentar, também, a tragédia humana representada por esses valores. Ao testar a tal imunidade de rebanho na população em prol “da economia”, além dos mais de R$50 bilhões perdidos em orçamento, presenciamos o maior experimento médico antiético pós-Segunda Guerra Mundial — parcialmente impedido com a federalização do combate à pandemia. Essa atrocidade, sem paralelo no Brasil, ainda será registrada com muito pesar pela História.

Alguns ainda podem argumentar sobre as tentativas do governo em promover “qualquer tratamento possível”, visando salvar vidas enquanto as vacinas não chegavam. Mas, essa conversinha não desce. Cada nova “estupidez” promovida pelo governo federal foi pensada para promover o enriquecimento ilícito de barões da velha política — não o seu, dono de lojinha no centro. A estratégia levava os seguidores do presidente, esses de fato tomados pela estupidez, a adquirir tratamentos duvidosos e a apoiar ou rejeitar certos fornecedores baseados somente em uma pseudo lógica ideológica, longe de qualquer razão. Questionavam fabricantes renomadas, grandes institutos de pesquisa e confiavam nossa saúde em correntes de whatsapp. O primeiro tratamento milagroso foi a Cloroquina, prontamente abraçado pelo Governo Federal e fabricado pelo Exército Brasileiro, passando a produzir uma quantidade mais de 84 vezes acima da normal. Em seguida, veio o superfaturamento de 167% na compra de insumos nacionais, em torno de R$300 mil reais acima do preço normal, um trocado. Pouco depois, na aquisição internacional vinda da Índia, um sobrepreço de quase 6 vezes levou ao prejuízo de R$520 mil aos cofres públicos. Pouco depois o orçamento para “enfrentamento da pandemia” enviado às Forças Armadas saltaria, incrivelmente, para R$231 milhões. Caso o padrão de aumento de preços se mantenha, pagaremos em torno de R$185 milhões a mais em relação aos valores habituais — uma mera inflação provocada pela “alta do dólar e complicações logísticas”.

Considerando a qualidade do trabalho do General  Pazuello, os problemas logísticos são até esperados. 

Já sobre as vacinas, o lamaçal se aprofunda ainda mais. Após recusar ofertas super atrativas de diversas empresas e centros de pesquisa por meses, Bolsonaro e família, tomados de lucidez repentina, pararam de atrasar o processo de vacinação e se animaram com um fornecedor indiano, representado por um escritório em Cingapura, para a compra da Covaxin. O valor de US$15 por dose, o mais alto até o momento e muito acima do preço de US$1,34 divulgado anteriormente pela fabricante, é semelhante ao praticado pela Bharat Biotech para clínicas privadas, sobre a justificativa de uma menor escala e maior dificuldade de distribuição — a compra pelo SUS não se encaixaria nessa premissa. Para piorar, um dos intermediários, a Precisa Medicamentos, já participou de aquisições duvidosas no Ministério da Saúde no valor de R$19,90 milhões em medicamentos nunca entregues. Apesar de não concretizada após pressão da CPI da Covid, a tentativa de desviar dinheiro público em si constitui um crime grave. Parafraseando um comentarista que li recentemente: “se você descobre seu parceiro(a) marcando um encontro amoroso com outra pessoa antes do fato ocorrer, você ainda é corno!”. Se o pior for atestado, confirmando a tentativa de sobrepreço de US$13,66 por dose — um desvio de R$68,30 na cotação de hoje —, o rombo chegaria a R$1,36 bi. 

A soma de todos os valores duvidosos, concretizados ou planejados, do Governo Federal  no “combate à pandemia” é de aproximadamente R$1,50 bi. Ou seja, causou um prejuízo total em torno de pelo menos R$50 bi — considerando os falecimentos, problemas previdenciários e de arrecadação — e matou mais de 400 mil pessoas para conseguir essa parcela. Se ficou com alguma dúvida, o valor daquele avô, avó, pai, mãe, primo, filho ou amigo mortos durante a pandemia é de aproximadamente R$3,75 cada ou 1 litro de leite.

Três reais e setenta e cinco centavos.   

Fontes:

https://www.unicamp.br/unicamp/coronavirus/quanto-custa

https://opendatasus.saude.gov.br/dataset/registro-de-ocupacao-hospitalar

https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2021/03/13/mesmo-recuperados-pacientes-podem-apresentar-dores-cronicas-pela-covid-19.htm

http://www.hgb.rj.saude.gov.br/noticias/not.asp?id=1507 

https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,cpi-da-covid-brasil-poderia-ter-evitado-ate-400-mil-mortes-por-covid-19-dizem-pesquisadores,70003757793

https://portal.fazenda.sp.gov.br/acessoinformacao/Paginas/Arrecada%C3%A7%C3%A3o-Anual-Per-Capita.aspx

https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/2020/09/15/exclusivo-sem-contestar-exercito-paga-quase-triplo-por-insumo-da-cloroquina

https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/05/preco-que-governo-paga-pela-materia-prima-da-cloroquina-explode.shtml

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-57639980

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