Ócios Queer

Pandemia de COVID-19 e população LGBT+: realidades invisibilizadas

Por Alef Santana, pós graduação da EERP;

Desde que a pandemia de COVID-19 abarcou no Brasil em meados de março de 2020, inúmeras discussões têm tomado conta – e espaço – nos noticiários, jornais e nas principais redes sociais do povo brasileiro. A preocupação e o pânico instaurado na sociedade foi, quase que instantaneamente, compartilhado por todos os segmentos sociais e o discurso que ganhava coro à época era o da “doença democrática” e que, independente de classe, raça, gênero ou orientação sexual, todos estavam vulneráveis a nova enfermidade. Uma concepção, no entanto, que logo se mostrou completamente equivocada.

Já se sabe – ao menos a ala mais progressista – que lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, transgênero, intersexos e pansexuais (LGBTTIAP+) vivenciam processos de exclusão, estigmatização e preconceito decorrente das suas orientações sexuais e ou identidade de gênero. As inequidades em saúde produzidas a partir de estruturas desiguais favorecem com que esse público social vivencie, de forma sistematizada e histórica, dificuldades não só no acesso aos serviços de saúde, mas também a um conjunto de situações que potencializam o estigma e às desigualdades sociais, como o não-acesso à educação; dificuldades na construção e fortalecimento das redes de apoio; insuficientes oportunidades de profissionalização formal; o não-apoio da família; renda econômica insuficiente para viver dignamente, entre outros.  Com a chegada da pandemia da COVID-19 esses contextos foram potencializados, pois ganha relevo nesse cenário às desigualdades que favorecem “a disseminação do vírus e dos seus efeitos, observando a agudização das dessemelhanças e inequidades, que são, muitas vezes, interseccionadas pela raça/cor, etnia, gênero, orientação sexual, classe social e deficiências” (Santana, Melo, 2021, p.8). 

Desde a metade de 2020 que inúmeras ações sociais foram instituídas pelos governos estaduais e municipais para que fosse possível mitigar a disseminação da COVID-19. À época, medidas como distanciamento social, lavagem das mãos com água e sabão, utilização de álcool e gel e de máscaras faciais, foram umas das principais medidas não-farmacológicas que contribuíram (e contribuem) para a não disseminação do vírus – hoje, somasse a tais medidas, a vacina e a estratégia de vacinação em massa, como principais meios de evitar casos graves e consequentemente a morte da população, e o colapso do Sistema Único de Saúde (SUS). No entanto, ainda que tais medidas estejam centradas em custos econômicos baixos, caberia refletir como pessoas LGBT+ em extrema situação de vulnerabilidade (que não coincidentemente são negras) recorreriam a tais métodos de prevenção, principalmente pessoas transexuais – notoriamente mulheres trans, travestis e homens trans. Menciono, ainda, a LGBTfobia como um Determinante Social de Saúde (DSS) visto que esta vai, em vários níveis, modificar a capacidade de proteção dessas pessoas, como é o caso acima citado.

Não só isso, mas caberia refletir como a pandemia vem modificando uma serie de relações e questões sensíveis quando pontuamos vivências LGBT+. As relações familiares que, em grande medida, são conturbadas e que produzem uma série de violências, é um dos pontos chaves que tendem a potencializar a depressão, ansiedade, e ideação suicida. Aqui convido todos a refletirem, inclusive, a romantização e o imaginário social da família, tida como um espaço “livre, de amor e segurança”. O distanciamento social que é até hoje um dos meios mais eficazes para evitar a disseminação e infecção pela COVID-19, se mostra como um desafio para pessoas LGBT+, especialmente para aquelas que perderam seus empregos – devido a crise econômica, política e social – instaurada e reforçada a partir da pandemia e para aquelas que não possuem abrigo (Santana, Melo, 2021).

Um outro contexto que ganha destaque e é realçado pela pandemia é o da saúde mental das pessoas LGBT+. A LGBTIfobia é uma das principais causas do sofrimento emocional de pessoas LGBT+. As queixas relativas à saúde mental de pessoas LGBT no Brasil estão situadas em sintomas depressivos, tristeza, baixa autoestima, ansiedade, insônia e diversos tipos de transtornos. Durante a pandemia, no entanto, as estratégias de distanciamento social podem potencializar essas queixas. A solidão e o não-contato com as redes de apoio podem, em alguma medida, potencializar o sentimento de desesperança, medo e tristeza. A recomendação de manter algum contato on-line com os amigos, conhecidos, etc., ainda assim, é perpassada por uma questão de classe, pois exige em tempos pandêmicos, o acesso à internet e a um smartphone ou computador. Ou seja, realidades que não são discutidas, visibilizadas, e tampouco tidas como prioridades para sua resolução pelo poder público. Há ainda inúmeras realidades que exigem uma grande articulação para uma efetiva resolutividade: LGBT+ em situação de rua; privados de liberdade; trans profissionais do sexo; adolescentes LGBT+, etc.

À guisa de conclusão, gostaria de pontuar mais um contexto que, propositalmente ou não, é invisibilizado. A realidade das pessoas trans – em especial mulheres transexuais, travestis e homens trans e transmasculinos. A transfobia vivenciada por tais pessoas é iniciada, muitas vezes, ainda no seio familiar. E muitas vezes, daí decorrem-se inúmeros tipos de violência, como a física, verbal, sexual, psicológica, etc. Pessoas trans muitas vezes precisam se submeter ao trabalho sexual para sobreviver e como se não bastasse, a expectativa de vida dessas pessoas é de 35 anos de idade, segundo dados do ANTRA. São realidades locais que, sem dúvida alguma, produzem relações e contextos vulnerabilizadores, e que à medida que a pandemia de COVID-19 avança e os governos estaduais e municipais discorrem sobre os meios de prevenção – distanciamento, uso de mascaras, etc. –  tais recomendações para este público parece pouco possível, visto que como mencionado acima, muitas e muitos estão em situação de vulnerabilidade socioeconômica, não possuem emprego, não possuem renda e são de forma contínua “assassinadas socialmente”. O serviço “braçal”, nesse caso, é feito pelas ONGs, e entidades filantrópicas ligadas ao movimento LGBT+, trans, negro, etc. É preciso que o poder público assuma a responsabilidade e instaure medidas que visem mitigar os efeitos sociais da pandemia, pois como demonstrado durante esse pequeno texto, o vírus não é democrático. Na verdade, as mortes por COVID-19, há tempos, já têm cor, gênero e classe.

Para mais informações e uma leitura mais completa do assunto, recomendo a leitura do artigo “Pandemia de covid-19 e população LGBTI+. (In)visibilidades dos impactos sociais”. Disponível em: https://www.scielo.br/j/sess/a/fsX8vyYh4MdTsSLQ3PGVm4k/.

REFERÊNCIAS

Santana, Alef Diogo da Silva e Melo, Lucas Pereira de. Pandemia de covid-19 e população LGBTI+. ( In)visibilidades dos impactos sociais. Sexualidad, Salud y Sociedad (Rio de Janeiro) [online]. 2021, n. 37 [Acessado 11 Julho 2021], e21202. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/1984-6487.sess.2021.37.e21202a&gt;

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