Texto da semana

A ótica de “Guerra Cultural” que habita em nós

Autoria: Filipi Lopes Araujo – TLXVI da EERP

Em um vídeo¹ no canal do YouTube da CartaCapital, o professor João Cézar de Castro Rocha, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), detalha uma estratégia e um “modo de funcionar” do Bolsonarismo: a Guerra Cultural. Este conceito e, arrisco dizer, forma de enxergar o mundo, se inseriu na política em 1992, quando o republicano Patrick
Buchanan dizia que as eleições deste mesmo ano eram, na verdade, uma guerra pela “alma da América”, na qual ele defendia os valores da família tradicional e ia contra todas as ideologias que “ameaçavam” a continuidade da mesma, ainda que para isso ele precisasse violar o respeito aos direitos humanos básicos das minorias estadunidenses.

Semelhantemente, o Bolsonarismo no Brasil afirma defender a essência do brasileiro, a qual é inteiramente composta por valores morais fundamentalistas, nessa perspectiva, pressupondo que ser favorável ao governo Bolsonaro é o mesmo que apoiar a vida, a justiça, o bom caráter, a integridade e retidão. Tudo isso foi construído em anos de participação do atual presidente em meios de comunicação de massa e disseminação de fake news que atacavam não somente as propostas de partidos nomeados “esquerdistas” (especialmente o Partido dos Trabalhadores), mas principalmente seus representantes de forma íntima e direta.

Com todo este trabalho de Jair Messias Bolsonaro e seus seguidores, construiu-se uma ideia de que eles, representantes do bem, da moral e dos bons costumes, são os que merecem, cegamente, ser apoiados, enquanto os outros, encarnação da imoralidade, injustiça e corrupção, não merecem sequer ser ouvidos e considerados, pois antes de se expressarem, presume-se que suas intenções são sempre sujas, o que é “confirmado” com fake news sobre projetos de lei viabilizadores da ideologia de gênero na educação infantil, aborto, pedofilia, privilégios para população privada de liberdade, entre outros que inexistem, mas, ainda sim, aterrorizam uma parcela dos brasileiros.

Contudo, o que mais me preocupa e que tem sido o foco de algumas reflexões que tive nas últimas semanas, é como essa visão maniqueísta da realidade, que afirma a existência e o conflito entre o bom e o mau, inviabiliza o diálogo e, portanto, o desenvolvimento e a resolução de conflitos. Infelizmente, muitos de nós adotam a ideia de que os seus ideais são os únicos corretos e, portanto, deviam ser percebidos por todos desta forma.

Portanto, por assumirmos que já descobrimos o que é melhor para a sociedade, a política, educação etc, nos fechamos a qualquer oportunidade de diálogo e expressão antagônica, desconsiderando o outro enquanto ele fala, visto que sua maneira de enxergar o mundo é má, irreal e/ou fora de contexto, logo, ele enquanto pessoa é descaracterizado e traduzido como ser indigno de ser ouvido.

Se o que escrevi até aqui parece muito abstrato para você, permita-me exemplificar: para alguns, este outro “perverso” pode ser um indivíduo com ideais políticos progressistas, mas, para outros, pode ser aquele tio conservador, ou aquela vó fundamentalista, aquele professor neoliberal, a tia evangélica, ou ainda a chefe feminista. Todos estes personagens podem ser caracterizados de forma diferente, a depender da ótica de quem os enxerga. Para alguns eles podem ser um aliado que visa o progresso, mas, para outros, podem ser inimigos que, caso obtenham lugar de fala, farão um desserviço para a política e sociedade.

Então, se quisermos que o status quo de desconsideração e desentendimentos seja superado, precisamos entender que o outro, enquanto indivíduo, não é nosso inimigo, mas sim um ser que carrega consigo crenças derivadas de um contexto, as quais merecem ser expressas e ouvidas atentamente, ainda que isso resulte em discordâncias e debates calorosos, porque até mesmo a dissensão precisa encontrar lugar para se manifestar entre nós, caso contrário, ela se apresenta como violência e intriga de cunho pessoal posteriormente.

Com certeza você ficou sabendo ou teve relacionamentos que foram profundamente afetados pela oposição no campo das ideias, mas isso provavelmente aconteceu porque alguma das partes tomou como pessoal a crítica e/ou o apontamento do outro, o que não é difícil de acontecer, eu reconheço. Contudo, para que possamos manter o progresso e o aperfeiçoamento social e pessoal, é imprescindível adotar uma postura sinceramente interessada no outro em momentos de diálogo.

Inclusive, para mantermos o respeito aos direitos humanos de cada cidadão, não podemos silenciar ou desconsiderar ninguém, por mais desconexa que a fala do outro me pareça, porque a mudança e o aprendizado só é possível quando somos compreendidos. Por fim, quero concluir registrando que este movimento de abertura ao outro e de flexibilização ideológica nos momentos de diálogo é desafiador, especialmente quando o que é expressado por ele é compreendido por mim como uma oposição e/ou violação dos meus direitos básicos, porque mexe com meus sentimentos e memórias, então para lidar com este momento acredito ser essencial tomarmos um distanciamento emocional da opinião proferida pelo outro e olharmos para ela como uma construção histórico-social que surgiu a partir de pressupostos que, naquele momento, fazem sentido para o indivíduo.

Dessa forma, com treino e com tempo, vamos aprendendo a reconhecer as crenças que embasam as opiniões e teremos a oportunidade de aprender com elas ou objetar-nos a elas, e não a quem o indivíduo é em essência. Somente assim eu acredito que construiremos uma realidade mais justa, onde os direitos humanos de cada cidadão poderão ser respeitados na medida em que suas necessidades são não somente comunicadas, mas compreendidas e consideradas.

1: o vídeo pode ser visto no link: https://www.youtube.com/watch?v=CAEcthnbOac

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s