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A beleza (racial) em “O olho mais azul”

Por: Victor Aragão (Didi) – T. XIII da FDRP

Certa vez comentei em um texto que viver num mundo avesso ao que nossa identidade é deixa feridas que levam anos para cicatrizar, quando sequer cicatrizam. Modelar esse processo em forma literária certamente é uma tarefa que, no mínimo, exige habilidade e talento. A leitura de O olho mais azul se dá em grande parte na experiência justamente disso: o molde literário de uma vivência dolorosa, resultado de um contexto oprimido e opressor. Escrito entre 1962 e 1965 e publicado no ano de 1970, O olho mais azul é o romance de estreia da escritora norte-americana Toni Morrison. Nele, acompanhamos a história de Pecola Breedlove, uma menina negra a qual reza todas as noites para ter uma beleza diferente: possuir olhos azuis e de como isso lhe proporcionaria a paz que tanto almeja.

O livro é contado pela perspectiva de Claudia MacTeer, uma das amigas de Pecola e uma espécie de alter ego pelo qual Morrison se utiliza para construir a narrativa. Nesse ponto, temos um dos aspectos mais interessantes do livro. Ao longo do romance, a história de Pecola é contada por todos ao seu redor, menos por ela mesma, jogando-a numa espécie de silêncio o qual é quebrado pela narradora. Através da leitura, percebemos que o silêncio de Pecola não se dá por acaso, e sim que é fruto da soma de todas as suas experiências dolorosas as quais a lançam numa espécie de incapacidade comunicativa, dificultando-lhe a tarefa de contar sua própria história. Além disso, o contraste entre a vulnerabilidade de Pecola e a fibra de Claudia demonstram as diferentes reações subjetivas as quais pessoas distintas podem emitir em face da opressão racial. Se Pecola é frágil e vulnerável, Claudia é questionadora e raivosa por toda a imposição de um determinado padrão de beleza o qual não a contempla, o que a faz desenvolver um senso crítico que lhe permite questionar a realidade ao seu redor. Contudo, se é interessante notar como a “carapaça” de Claudia reage ao racismo, acompanhar como Pecola sucumbe a este é uma experiência, no mínimo, dolorosa.    

A narrativa do romance não é linear, de maneira que o livro é dividido em quatro partes, cada qual recebendo o nome de uma estação do ano. Não sendo uma narrativa linear, tem-se aí um aspecto estrutural daquilo que acredito que seja o tema central do romance: a fragmentação de uma subjetividade através do encolhimento de qualquer senso de autoestima. Pecola se ressente muito por ser “feia” e acredita que todos os males que lhe acontecem decorrem em grande parte por causa desse fato. Logo, para Pecola, possuir a beleza dos olhos azuis solucionaria seus problemas. Nesse interim, Morrison, além de lançar uma impactante reflexão sobre raça, gênero e padrões de beleza, expõe a face mais cruel do racismo enquanto estrutura da sociedade norte-americana (e, por que não, da brasileira também) e de como ele pode destruir mental e fisicamente um dos seres mais vulneráveis para a autora: uma menina negra.

Seja por meio da invisibilização que Pecola sofre em determinado episódio no supermercado, seja pelo bullying que sofre no colégio (por outras pessoas também racializadas, diga-se de passagem) ou pela internalização de sua “feiura”, bem como diversos outros episódios terríveis de sua vida, o que se acompanha em O olho mais azul é um verdadeiro processo de despedaçamento da personalidade, fazendo com que uma menina não consiga enxergar a si mesma enquanto pessoa. Como consequência, resta a Pecola desejar aquilo que considera (e é considerado) mais belo de modo que, além de lhe proporcionar autoestima, possuir olhos azuis seria o único instrumento para que ela conseguisse enxergar a si mesma.

Neste ponto, faço um adendo. Morrison, ao longo de sua carreira, sempre lutou para que seus livros não fossem dominados pelo que a autora chamava de white gaze (olhar branco), a qual, para ela, permeou parte da literatura afro-norte-americana. Em linhas gerais, white gaze poderia ser definido como uma pré-suposição de que o “leitor padrão” se identificaria como branco, tendo, portanto, a perspectiva de uma pessoa branca. Nesse sentido, tal pré-suposição levaria escritores de outras raças a considerar o julgamento de pessoas brancas, de maneira que esses escritores devem ou deveriam levar em conta que terão sua história, personagens e narrativa lidos por tais pessoas. Em outras palavras, o white gaze levaria escritores não-brancos a constantemente “se explicarem” para supostos leitores brancos, o que, em alguma medida, comprometeria a qualidade de sua literatura.

A meu ver, Morrison consegue materializar de maneira magistral o problemático white gaze em O olho mais azul, não se submetendo, evidentemente, a ele. Levando em conta que o white gaze trata-se de um olhar externo branco, os olhos azuis almejados por Pecola consistiriam na materialização desse conceito. Assim, ao nos depararmos com Pecola desejando enxergar a si mesma única e exclusivamente por meio de um instrumento que lhe é externo, interpreto como sendo a demonstração de Morrison da faceta mais tóxica – e, diria, fatal – do white gaze, o qual pode ser capaz de minar todo o senso de beleza e autoestima de uma garota vítima de um contexto racial que não a entende enquanto “bonita”. É nesse aspecto que uma das facetas mais cruéis do racismo se revela: a destruição de qualquer lampejo de autoestima de uma pessoa, provocando por consequência o apagamento de uma visão de si enquanto ser humano.

No livro também somos levados a um exercício de empatia. A princípio, o leitor pode sentir raiva dos pais de Pecola por lhe proporcionarem alguns dos sofrimentos que ela atravessa. Contudo, ao longo do romance, o que Morrison faz é buscar compreender como uma família devastadora chegou a tal configuração, revelando que se trata de uma família também devastada. Nesse exercício, a autora não exime os personagens da culpa de suas atitudes para com Pecola, mas sim nos conduz a um exame de compreensão – e não de justificativa – dos seus atos.

Mais uma vez, ao fazer tal escolha, Morrison desnuda as nuances que o racismo assume em diversas subjetividades enquanto estrutura da sociedade. Nesse sentido, a autora se desvencilha de idealizações e demonstra que, fruto das suas vivências (dolorosas), as personagens assumem um caráter, no mínimo, questionável o qual perpetua o sofrimento a que foram submetidas para com as gerações mais novas – nesse caso em especial, para com Pecola. No final das contas, Morrison se utiliza do exemplo mais trágico de configuração familiar para expor as últimas consequências do racismo, conforme ela mesma relata no posfácio da edição. Sendo a obra de estreia de Toni Morrison, O olho mais azul demonstra a força narrativa e literária que a autora ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura possui. Mesmo em não se tratando de um livro perfeito, com algumas pontas soltas – as quais, diga-se de passagem, a própria autora reconhece no posfácio da edição -, tal livro constitui-se numa tentativa (muito bem sucedida) de Morrison em construir um romance verdadeiramente autêntico sobre a cultura e a comunidade afro-norte-americana. Nesse interim, o que Morrison produz é um verdadeiro retrato de tal comunidade nos EUA, trazendo problemáticas e reflexões que são pertinentes até os dias de hoje e lançando a pedra fundamental de seu caminho como uma das escritoras mais proeminentes da literatura norte-americana contemporânea. Em síntese, apesar de dolorosa, é uma excelente obra que vale muito a pena ser lida.

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