Texto da semana

Trazendo a arte de volta à literatura

Por: Caio M. de Polo (Simba) – TXIII da FDRP

Quando se fala de literatura, é muito comum ouvir falar de sua capacidade de denúncia, a elucidação de problemas sociais que são ignorados pelas pessoas, ou até mesmo a capacidade dela de penetrar nos limites da psicologia humana e identificar as estruturas que movem o ser humano, mas que escapam da obviedade das relações cotidianas. Enfim, ela aparece como uma forma de análise da realidade humana. Até mesmo se diz que ela é usada como forma de escapismo da realidade monótona e maçante, algo que demonstrarei como errado mais adiante. 

Contudo, ao se levar em conta as duas primeiras características da literatura que foram citadas, uma pessoa poderia indagar: “mas se a literatura é esse meio pelo qual se analisa a realidade do ser, o que a diferencia da filosofia ou da sociologia? Por que um autor escolhe escrever um romance e se dar o trabalho de imaginar personagens e situações complexas quando ele poderia simplesmente elucidar seus pensamentos em um ensaio filosófico ou sociológico?”.

Essas perguntas revelam a insuficiência de uma visão meramente social da literatura. O que não é o mesmo que dizer que a literatura não é capaz de realizar o que foi citado até então, mas apenas que diminuí-la a um meio pelo qual o autor expõe seus pensamentos e ideias, de maneira a torná-los visíveis à sociedade, não corresponde com a beleza da sua composição.

Ao se discutir literatura, é preciso levar em consideração um aspecto essencial: a literatura é arte.  É arte, assim como a pintura, a escultura, a música, e as demais. Ser arte é, antes de tudo, ser subjetividade, é ser sentimento. O essencial de uma manifestação artística é o sentimento por trás dela. Uma pintura, tanto a pintura sacra do renascentismo, quanto o impressionismo de Monet, traz em si aquilo que o pintor sente, isto é, um quadro não é uma manifestação racional de como o pintor vê a realidade, ou uma denúncia imparcial e distante de algo. Uma pintura é uma decisão deliberada do artista de trazer vida aos seus sentimentos. Assim também o é a literatura, porque ela é arte como a pintura.

Mesmo quando a decisão de fazer literatura parte da indignação com alguma situação histórica ou cotidiana, o essencial continua sendo a vontade de expressar um sentimento. Pouco importa para o escritor se ele produziu uma obra completamente fechada na lógica, sem lacunas em seu “argumento”, por assim dizer, o mais importante é que ele transmita um sentimento a seus leitores, que eles leiam o conto escrito e sintam algo que, até então, não haviam experimentado antes, o que importa é despertar algo único. Decidisse o autor por apenas elucidar um problema, seus leitores adquiririam conhecimento, mas não experimentariam o prazer de sentir, de transcender a situação de um mero estudioso e se tornar humano.

No entanto, sentir o despertar de emoções trazidas por uma obra literária é uma tarefa interessante, porque a arte escapa a qualquer tentativa de interpretá-la. Quando um indivíduo lê, por exemplo, Angústia, de Graciliano Ramos, ele analisa situação vivida pelo personagem principal, que vive em uma casa completamente deteriorada, odeia seu trabalho, se sente cansado a todo instante, é infeliz e sente asco à aparente leveza da vida dos outros personagens. Ao observar todos esses aspectos o leitor aprende sobre essa realidade, compreende as estruturas sociais que estão em jogo no cotidiano do personagem principal e talvez daqueles indivíduos que vivem da mesma forma. Assim, o leitor compreende a mensagem da obra. Contudo, ao tomar o livro como um mero objeto de conhecimento, ao analisá-lo e interpretá-lo, ao tê-lo como um meio de comunicar algo, ele não penetrou na dimensão artística da obra.

Isso porque dizer que a arte foge a qualquer tentativa de interpretá-la implica tomá-la como um conjunto completo, fechado em si, não se deve procurar racionalizá-la, transcender o que está no papel, ou na moldura. Significa dizer que o sentimento expresso pelo autor, a angústia que penetra o texto, só pode ser alcançado quando se abre mão da tentativa de racionalizar a obra, de compreendê-la. É preciso tomar em conta apenas a totalidade de elementos presentes na obra sem ultrapassá-los rumo a um ensinamento a ser obtido. Mas para tal, um mínimo de traição artística ainda é necessário, é preciso ao menos entender o contexto da obra, a situação histórica ou psicológica do autor que permitiu sua concepção. 

Pouco adiantaria para mim buscar o sentimento pleno expressado por Dostoiévski em O Idiota se eu não soubesse que a obra trata da complexa psicologia do perdão cristão e do pecador, dessa maneira eu poderia apenas experimentar aquilo que eu já sei, sentimentos que surgem de situações que me parecem claras na obra. Enfim, não seria capaz de compartilhar com o escritor o sentimento único que permeia o livro, pois toda obra encerra em seu interior um sentimento único, pertencente apenas a ela. A angústia que posso experimentar ao ler O Idiota não é a mesma que em Angústia, ou que em A Peste, de Camus, as situações diferentes que as obras encerram despertam sentimentos diferentes. Porém, retornando a Dostoiévski, se eu apenas buscasse observar os aspectos da obra que fazem parte da psicologia que envolve a relação perdão-pecador, buscando obter um conhecimento pleno acerca da situação expressa pelo escritor, eu estaria me privando da capacidade de sentir. Para sentir devo me abrir para a obra, ou seja, não devo tentar invadi-la e decodificá-la, devo ser como um náufrago em alto-mar.

Em suma, a apreciação da arte literária, como qualquer uma, é um exercício de passividade, de inércia, é um eterno viver no instante e nos limites daquilo que me cerca. Apenas permanecendo inerte ao ler um livro é que deixamos que ele nos influa com o sentimento usado na concepção da obra, se buscamos analisar o livro quebra-se esse leito de leveza a qual nos deitamos e torna-se a arte em conhecimento, em filosofia, em sociologia. A arte, pura subjetividade, quando é observada sob os olhos do conhecimento, se desintegra.  

Isso foi algo que se me tornou evidente durante a leitura da segunda parte do Fausto, de Goethe. Até certo momento, eu estava muito preocupado em observar como o autor realizava a contraposição da mitologia gótica-cristã com a mitologia da Grécia clássica, utilizando essa dicotomia clássico-gótico para demonstrar a queda do culto à beleza mundana e dos sentimentos humanos, que deram lugar ao repúdio cristão pelo mundano e a feiura deste. Todavia, logo quando eu abri mão de tentar juntar esses elementos em uma estrutura racional coesa e apenas passei a ler me deixando impregnar pelas páginas, sem preocupações intelectuais, foi o momento em que pude experimentar o sentimento de leveza e de beleza nas passagens da obra. Foi justo durante a visita onírica de Fausto à Grécia antiga, depois de longas passagens sob a companhia de Mefistófeles pela Alemanha gótica, um momento de puro êxtase de sentimentos e sensações para o personagem principal.

Interessante notar também que esse despertar de sentimentos causados pela minha inércia diante da obra coincidiu também com o momento de inércia de Fausto, que até então buscava ativamente satisfazer seus desejos existenciais com a ajuda de Mefistófeles, obtendo apenas frustrações, para se desligar da influência do ser cristão-demoníaco e ser levado passivamente pela Grécia clássica. Isso demonstra claramente a relação entre ambas as dimensões de uma obra literária, a artística e a intelectual. Goethe sabia da importância da pura contemplação, pura inércia, para a apreciação da vida e do belo, e realizou a confecção dessas passagens da obra para que o leitor sentisse o que até então existia apenas como ideia, permitiu ao leitor alcançar o sentimento para depois compreender o conhecimento, não buscou uma explicação lógica para o que ele queria expressar, apenas permitiu que o leitor experimentasse a singularidade desse sentimento.

Ainda restou uma ponta solta no meu argumento: a questão da literatura como escapismo da realidade. Até o momento demonstrei como a literatura não deve ser considerada um mero meio para se expressar uma ideia, mas sim, também, uma totalidade plena, fechada em si, que desperta sentimentos no leitor quando este assume uma posição de total passividade diante da obra. Portanto, a questão do escapismo parece ter permanecido intocada. No entanto, a quebra dessa visão literária se faz pelo mesmo motivo responsável por quebrar a visão meramente social da literatura, sendo este motivo a característica essencial da literatura: ela é sentimento.

Ser sentimento implica dizer que a literatura tem como finalidade o “si”, ela existe para despertar no leitor um sentimento seu que ele não havia experimentado até então, logo ela retorna sempre à pessoa do leitor. O que faz a ficção científica, por exemplo, prazerosa para o leitor não são as descrições de instrumentos e sociedades altamente tecnológicas, de raças extraterrestres e de outros planetas habitados, mas o fato de que tudo isso ainda é ocupado por personagens e situações que despertam sentimentos humanos em nós mesmos. São os sentimentos que nós experimentamos ao ler tais obras que as tornam atraentes do ponto de vista literário. Portanto, não é o escape da nossa realidade que torna a literatura prazerosa, é a própria constatação de que aqueles sentimentos que somos capazes de experimentar na nossa realidade podem ser despertados em diferentes situações descritas em uma obra literária. Uma literatura que realmente pudesse escapar da realidade seria aquela produzida por um ser que não sentisse da mesma forma que nós, seres humanos, uma literatura, portanto, incompatível com a capacidade de sentir humana.

Espero ter conseguido mostrar ao leitor desse texto que a literatura não é apenas uma expressão política, social ou psicológica do autor sobre o mundo, visão esta muito forçada aos leitores, principalmente nos círculos intelectuais. A literatura, por ser arte, não é simplesmente a transposição de uma teoria social ou filosófica para o papel, não é um mero ensaio que toma formas através da imaginação de acontecimentos e personagens. Ela é também um convite à sensibilidade humana, à capacidade de sentir, mesmo sem ser capaz de se explicar com palavras exatas o que se sente. Tanto a prosa como a poesia são capazes de despertar sentimentos únicos e inexplicáveis através de um argumento racional, os exemplos aqui dados tocaram apenas na superfície daquilo que se é capaz de experienciar durante a leitura das obras citadas. Tentar descrever com palavras e de maneira racional algo que não nasce de um raciocínio lógico, mas que vem de uma região completamente diferente da psique humana, não é apenas impossível como também prejudicial, porque acaba diminuindo o encanto dessa experiência sublime. A análise psicossocial que se faz de uma obra nunca deve ignorar o fator sensível que ela traz.

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