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Screen Violence – CHVRCHES

Por Thadeu Vilas – TXII FDRP

Desde seu debut em 2013 com o ótimo The Bones of What You Believe, CHVRCHES se tornou um dos queridinhos do público fã de synthpop. Com letras bem trabalhadas e produção impecável, a banda de Glasgow nunca seguiu um caminho bem definido em seus álbuns, inovação presente em sua obra mais recente: Screen Violence (2021).

Feito durante o período pandêmico, esse é o primeiro álbum em que o trio elaborou sem estarem presencialmente juntos, conforme informado em entrevista à NME, haja vista além da própria pandemia, o fato de a vocalista Lauren Mayberry ter se mudado para Los Angeles. 

Devido à influência da tecnologia e das “telas” na criação do álbum, esta acabou se tornando o principal conceito e referência da obra, sendo usada como alegoria em diversas canções, e de forma mais literal nos vídeos da era, fazendo, dessa forma, o trabalho mais coeso do trio.

Pois bem, agora que a screen já foi devidamente referenciada, por que violence? Os fãs da banda já estão acostumados com músicas repletas de um lirismo quase sadomasoquista escrito por Mayberry, mas no presente álbum ele domina o registro. Isolamento, arrependimentos, corações partidos, depressão, esses temas formam a base poética da obra, porém, ao contrário de trabalhos anteriores, desta vez tudo foi abordado de uma forma mais palatável e acessível, porém, necessário ressaltar, que tal escolha não diminui seu valor poético, somente apresentou um lado que não estávamos tão acostumados.

Tais sentimentos já se mostram presentes na faixa de abertura do álbum, a agridoce Asking for a Friend, onde Lauren canta quase com um sentimento de vergonha “E as canções que escrevi sobre corações partidos / nunca vieram de graça / eu traí e menti / mas quando choro nunca é fingimento” em cima de uma batida que cresce à medida que as letras vão ficando mais intensas, uma fórmula que lembra o bem-sucedido Every Open Eye (2015), álbum que até hoje continua sendo o ponto alto da discografia do trio.  

Outro destaque do álbum vai para a intensa California. Em entrevista para o site Genius, Martin Doherty disse que quando alguém se muda para LA, é quase obrigatório que faça uma música sobre Califórnia, e esse era um clichê que eles queriam evitar. No entanto, Lauren surgiu com a letra base algo que ia em direção contrária à Califórnia idílica, adotando como ponto de vista uma pessoa com saudade e frustrada.

Impossível também não comentar os principais singles da era: Good Girl e How Not To Drown. A primeira música talvez seja a menos emocional do álbum inteiro, onde os sentimentos de melancolia dão lugar à raiva direcionada à disparidade de gênero, uma faixa inegavelmente interessante, porém que talvez não seja a melhor representante do álbum. No entanto, é em How Not To Drown onde o grupo atinge o ápice do trabalho. Nesta parceria com Robert Smith (The Cure) a banda canta sobre o sentimento de estar preso dentro de seus pensamentos e o constante desejo de desistir de tudo enquanto os sintetizadores mais sombrios usados na discografia do trio explodem ao fundo. “Estou escrevendo um livro sobre como permanecer consciente quando você se afoga / E caso as palavras flutuem até a superfície, irei tentar mantê-las ao fundo / Essa é a primeira vez que sei que não quero a coroa / Você pode tomá-la agora”. 

Essa é uma das poucas músicas em que a poesia lembra um pouco a escrita usada nos dos primeiros álbuns de estúdio, porém como uma produção mais sombria do que a previamente feita. Às vezes, é inevitável comparar os trabalhos do próprio artista, e após um tempo, o Screen Violence acaba por parecer um Love Is Dead (2018) que “deu certo”. 

Interessante ressaltar também, que esse álbum é onde a inspiração nas décadas de 80 e 90 aparece mais forte dentre os 4 álbuns do trio, com referências ao som de Depeche Mode, New Order e The Prodigy permeando diversas canções, como fica claro na ótima Violence Delights.

Conforme o álbum prossegue, encontramos faixas cada vez mais carregadas de sintetizados, até chegarmos na derradeira Better If You Don’t, onde uma guitarra mais acústica é o que carrega a música, fazendo uma balada que se destaca entre as anteriores justamente por esse elemento mais “orgânico”, e que, sendo verdadeiro, funciona perfeitamente. Após o sentimento claustrofóbico causado pela sequência Lullabies e Nightmares, Better If You Don’t funciona como um período para respirar e finalmente digerir tudo aquilo que fomos expostos, enquanto o lirismo da própria canção e os sentimentos presentes, estranhamento, não agem como um peso, mas sim como algo libertador. A saudade de casa, uma decepção amorosa, hábitos autodestrutivos, tudo aquilo expresso no álbum é potencializado na última faixa, porém com uma produção menor, invertendo a lógica usada até então. E é cantando “Eu bebo e penso demais / Eu deveria largar um desses dois / Mas eu não vou esperar que me desejem sorte / E não irei perturbar você / É melhor que você não se importe, mas caso sim / Eu não irei seguir você novamente”.

Screen Violence pode não ser o melhor trabalho de CHVRCHES, mas ainda assim é uma obra que está à altura do talento do trio e que vale a pena ser ouvida. 

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